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Flores de Almodóvar

Túmulo, Cemitério, Pedra, Lápide

Elena foi minha quarta esposa. Depois de enterrar as três primeiras, finalmente, havia conhecido uma mulher com manias semelhantes às minhas. Adorava cinema dinamarquês e pernambucano. Chorava ouvindo samba-canção e antigas melodias do rádio. Idolatrava Lars von Trier e Paolo Sorrentino. Manuel Bandeira e Dalva de Oliveira. Belchior, Gustave Caillebotte, Rubem Fonseca e Marcelo Camelo. Achava os diálogos de “Sonata de Outono” os mais comoventes do cinema e adorava criticar as adaptações das obras de Tolstói. Certa vez, disse-me que admirava a forma desengonçada com que Cerezo saía para o jogo. Escrevia roteiros jamais filmados e me auxiliava com os textos e composição de personagem.

Antes de continuar meu relato, gostaria de salientar que não sou ator. Minha profissão consiste em comparecer a enterros e velórios para prestar uma última homenagem ao falecido. Apesar de parecer, tal ofício não é tão simples. Sou um profissional. Em meio à crise, aperfeiçoei minhas técnicas e transformei meu trabalho em algo único e infungível. Primeiramente, recebo o familiar para uma entrevista e é neste momento que recolho o máximo de informações acerca da personalidade do defunto. Depois, crio um personagem que possa ter feito parte do círculo social da família e, a partir daí, redijo e decoro o texto a ser interpretado. Bem, olhando por este ângulo, acho que sou sim um ator. Ator, diretor e roteirista de meu monólogo.

Recebi, certa vez, a visita de um rapaz, que logo reconheci como sendo ex-marido de Elena. Ele não me conhecia, então decidi fingir que não sabia de quem se tratava. Sua mãe havia sofrido um AVC e, depois de uma semana na UTI, não resistiu e se foi.

– Está sendo muito complicado para mim. De certa forma, sinto que fui um pouco culpado pela morte dela – confessou ele.

– Tenho certeza que não. AVC é uma causa muito comum, principalmente, no mundo moderno – tentei, falsamente, consolá-lo.

– Ouvi dizer que stress contribui muito para a ocorrência de AVC. E minha mãe andava muito nervosa, devido ao fim de meu casamento. Minha ex-esposa era como uma filha para ela e, por isso, mamãe viveu seus últimos meses em uma verdadeira guerra com minha atual companheira.

Engoli seco. Não fiz propositadamente, mas estava diante de um homem disposto a me contar suas intimidades com a minha mulher. Pensei em mudar rapidamente de assunto, mas algo em mim pedia para continuar.

– Sei como é. Já fui casado outras três vezes. Ninguém é capaz de imaginar o que acontece entre uma feliz aparição pública e outra. Mas, sem querer ser indiscreto, se até a sogra tinha afeição por ela, sua ex devia ser uma grande mulher.

– Na verdade, não.

– Não?

– Olha, não vou dizer que era má pessoa. Mas, era adepta de umas manias estranhas que nunca tive coragem de confessar para minha mãe.

– Entendo. Manias estranhas…

– Gostava de apanhar.

Embranqueci. Suava frio. Ele continuou:

– No início, até achei interessante. Eu dava alguns tapinhas na hora do sexo e tal. Porém, a situação começou a passar dos limites. Ela me pedia para bater na cara, usar chicote, cinta. Gostava de ser amarrada, sufocada, queimada com cigarro. A questão acabou para mim quando apareceu com uma navalha e pediu que cortasse seu mamilo.

– Ai não! – gritei espontaneamente.

O homem me olhou assustado, mas me saí bem:

– Você tem toda razão. Não dá para contar uma coisa deste tipo para a mãe da gente.

Eu estava angustiado. Elena jamais havia dado sinais de ser adepta de sadismo ou masoquismo. Nem sexo anal ela se permitia fazer. Estava me sentido enganado. Desde que flagrei minha segunda esposa transando com o coveiro em um mausoléu, não sentia aquele calor nas entranhas. Conclui a entrevista liminarmente e dispensei o rapaz.

Cheguei em casa tão rápido, que mal pude definir as palavras que usaria com Elena. Acabei não usando nenhuma. De saída, já desferi um soco em seu rosto, o que a fez cair quase desacordada. Agarrei seu corpo e chacoalhei para que não desmaiasse:

– Não apaga, não. Não apaga. Dormindo você não vai sentir o prazer que trouxe para você.

Ela tentou balbuciar qualquer coisa, mas foi interrompida por minhas mãos apertando seu pescoço. Coloquei tanta força que Elena já não mais estava com os pés no chão. Joguei-a contra o guarda-roupas e apanhei uma cinta na primeira gaveta. Ergui a camisola dela, deixando as nádegas de fora e bati, bati, bati e bati, deixando que a fivela cortasse sua pele, do jeito que ela gostava. Elena esperneava, se debatia, chorava e gritava desesperadamente. Era uma excelente atriz. Mas eu sabia, ela estava gostando. Era por ela que eu fazia tudo aquilo. E faria mais. Entregaria a ela, o que seu antigo homem não teve coragem de entregar. Tomei em mãos um canivete e sentei em cima de sua coxa:

– Por que isso, amor? – resmungou ela.

Aquele cinismo era tudo que eu precisava para concluir o serviço. Com meu canivete de Edgar Allan Poe decepei as pontas dos dois mamilos. Ela desfaleceu de tanta dor. Levantei-me, tomei um banho para retirar o sangue e deixei o apartamento. Decidi tomar um ônibus até a funerária, para dar tempo de escrever no caminho, o texto da ex-sogra de minha mulher.

Depois de meu discurso feito, afastei-me e encostei em uma coroa de flores enviadas pela “Família Almodovár”. Meu primeiro pensamento foi “como Elena deixou escapar um homem que recebe flores de Almodóvar”. Este raciocínio logo desapareceu, pois percebi que o acento estava no “A” e não no “O”, como no nome do cineasta. Se bem que poderia ser um erro de grafia da floricultura. Incompetentes. Imagina só se a família de Tarkovsky, Stravinski ou Schwarzenegger decidissem enviar uma coroa. O funcionário teria um colapso, igual ocorre com o atendente do McDonald’s, quando trocamos a batata de lugar com o copo de refrigerante, enquanto ele está de costas.

Meus devaneios foram interrompidos pelo filho da falecida, que já me tratava como um amigo, após tanto desabafo:

– Veja. Aquela loira de vermelho chorando ao lado do caixão.

– Sim. O que tem ela?

– Manuela. A minha ex que te falei.

– Manuela? Você não havia dito Elena?

– Devo ter me confundido. Fui casado três vezes. Elena foi minha primeira esposa. Manuela, a segunda.

Ele realmente não havia dito.

Enterrei minha quarta mulher. Sem flores de Almodóvar, mas com um remorso digno de sua obra.

Carvalho de Mendonça

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2 Comentários

  1. Muito bom e muito criativo. Concordo sobre o Lars e Sonata de Outono!

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