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Patti Smith – de Só Garotos a Linha M

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Patti Smith é uma força inigualável do Rock e é tida por muitos como a grande precursora do Punk Rock (Sim, o Punk Rock começou com uma garota). Seu disco Horses (1975) figura em diversas listas como um dos melhores álbuns do século XX e é frequentemente utilizado como o marco inicial do movimento Punk na música. O que nem todo mundo sabe, no entanto, é que mesmo antes de ser a performer Patti Smith que boa parte do mundo conhece, a jovem Patrícia Lee Smith já pintava, desenhava e escrevia.

Só Garotos (Just Kids no original) trata justamente desta Patti Smith pré-fama. A partir de seu relacionamento  com o fotógrafo e artista plástico Robert Mapplethorpe, seu primeiro amor “de verdade”, seguimos uma tímida e insegura Patti Smith em sua jornada rumo a tornar-se exatamente aquilo que ela é.

Digo “tornar-se aquilo que ela é” porque Patti Smith é daquelas pessoas que nos fazem acreditar na ideia de que é possível nascer sob o gênio do artista. Desde criança, ela era de uma sensibilidade e criatividade únicas, o que apenas intensifica-se ao longo de sua adolescência e culmina na sua decisão em entrar em um ônibus para Nova York, sem dinheiro para lá se manter, mas com um objetivo claro: ser artista em NY.

Chegando lá, seu primeiro instinto é procurar amigos que estudavam e moravam em edifícios de estudantes na cidade. No lugar dos amigos, que já haviam se mudado, é Robert que ela encontra em seu lugar, e este é apenas o primeiro do muitos encontros e desencontros, físicos e afetivos, que compõem o complexo relacionamento dos dois. Acompanhamos, desse modo, as idas e vindas de sua relação, assim como o crescimento da ligação emocional entre os dois.

Mas o que é mais interesse em Só Garotos é vermos a formação de Patti e Robert enquanto artistas. Vivendo em situação precária e frequentemente deixando de comer para comprar novos pincéis, Patti nos mostra até onde a sua vontade, ou mesmo a sua necessidade de viver da sua arte é capaz de ir. Pois arte não é só o que eles fazem; é o que eles são. E eles precisam viver a sua arte, que nada mais é do que a sua verdade, intensa e plenamente.

O amor que Patti nutre por Robert não é um simples amor por um indivíduo, mas também é resultado do amor que ela sente por essa vida artística que ela encontra, pela primeira vez, ao seu lado. Tudo o que os dois fazem, todos os sanduíches que eles deixam de comer e as noites que eles deixam de dormir, é em nome dos artistas que eles querem (e conseguem, de uma forma ou de outra) se tornar.

Só Garotos é, desse modo, escrito em memória a Robert, claro, mas principalmente em memória à juventude de Patti Smith. No recente Linha M, ao contrário, é com a Patti Smith dos anos 2000 que nos encontramos. Aos 68 anos (agora 69), ela já se tornou A Patti Smith e vive uma vida confortável que a permite, por exemplo, ir todos os dias ao seu Café favorito, pedir café, torradas e azeite e escrever observações sobre a vida, a morte e o nada.

Linha M nasceu justamente deste exercício diário da escrita e, por isso, acaba sendo bem menos linear e organizado que Só Garotos. Dividido em pequenos capítulos, é uma obra que fica entre a lembrança e a realidade, entre o devaneio e o acontecimento, entre a reflexão e a imaginação, entre a ficção e a não-ficção.

Apesar dos diferentes tons, ambas são obras produzidas pela mesma Patti Smith, a mesma por trás do impressionante Horses. É, portanto, muito interessante pensar que a jovem ansiosa que se mudou para NY com um sonho na cabeça e um livro do Rimbaud na bolsa, ainda está de algum modo presente na Patti com filhos já crescidos e com casa na praia. Ler os dois livros, na ordem em que foram escritos e publicados, nos faz pensar sobre o quanto de nós permanecerá no nosso Eu de 2060 e o quanto teremos deixado para trás sem pensar duas vezes.

Maíra Protasio

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