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Na Minha Casa

São Francisco, Califórnia, Cidade, Cidades, Urbanas

A regra era “todos os dias antes de ir para a escola, arrumar a minha cama. Isso já era rotina, depois tomava um bom café, fazia a minha higiene e lá ia eu caminhando poucos metros até chegar lá”.

A regra era “não conversar com estranhos nem passar perto do bar de sinuca, jogo o qual eu achava interessante, mas não gostava da bagunça que tinha lá, era muito beberrão e quando saía briga dava medo. Também precisava chegar no horário antes da última chamada dos alunos para entrar”.

Quando voltava, precisava chegar junto com meus irmãos, tirar o calçado na porta, não jogar o material e sentar-me à mesa com todos. Depois cada um ajudava um pouco, mamãe saía para trabalhar.

A regra era “não abrir a porta pra ninguém, fazer as tarefas, estudar. Por último brincar, nada de ficar à toa procurando porcaria pra fazer”. Se não houvesse o que fazer, tínhamos uma estante cheinha de livros com estórias fantásticas, mas eu não gostava muito de ler, preferia que mamãe contasse as estórias pra mim.

Com o tempo fui odiando aquela rotina, comecei a quebrar todas as regras, chegava atrasado à escola, esquecia meus irmãos pelo caminho. Meu quarto parecia um filme de terror, andava sujo e não sentia fome, estava sempre querendo fazer o que me dava na cabeça. Mamãe foi várias vezes na escola, eu já nem ia mais, ficava pelo caminho. Conheci um tal de tiziu, um menino da rua que tornou-se meu melhor amigo, nós não tínhamos regras. Enfim fugi de casa e não voltei mais, ufa, a minha família era mesmo cheia de regras!

O tempo passou e aprendi que para sustentar a minha droga eu tinha que roubar, que acima de mim tinha traficante, que se eu não trabalhasse pra ele, não tinha como sustentar o meu vício, se eu não obedecesse às regras das ruas eu apanhava, passava fome e estava constantemente a mercê da obediência de quem não me amava! Sinto falta das regras de casa, mas eu as matei sem querer e pago o preço das regras mais difíceis da minha vida “tentar sobreviver”.

Sidnéya Day Ramos – Amora

Saiba mais sobre a autora clicando aqui.
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