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Regresso a Casa de Ana Maria Monteiro

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Ouviu a voz dela dizer “Até amanhã”, um até amanhã diferente de todos os que lhe ouvira nos últimos meses, dia após dia. Havia um cambiante encorpado no tom das palavras, era um até amanhã que continha uma presença implícita, quase explícita, no som.

Sim, amanhã estariam juntos, ambos o sabiam; não se limitariam às palavras através do intricado sistema de linhas telefónicas que permite que as pessoas comuniquem em tempo real entre dois quaisquer pontos e a qualquer distância. Amanhã não seria pelo telefone, seria ao vivo, ao vivo e a cores. E a certeza dessa presença estava contida no tom da voz que proferia as mesmas duas palavras diariamente, desde há tantos ontens.

Não pudera aparecer de surpresa, sem avisar – as circunstâncias não o permitiam – embora fosse o que secretamente gostaria de ter tentado fazer. Tentado, não sabia se conseguido, é tão difícil adiar um presente, refrear a excitação, quando o que se tem para oferecer não supera a satisfação que se obtém pela dádiva, quando o presente é para quem dá e quem recebe.

Mesmo assim, e não podendo concretizar integralmente esse desejo, havia preparado uma pequena surpresa: indicara-lhe um voo mais tardio, iria surpreendê-la chegando duas horas mais cedo do que lhe dissera.

Talvez a encontrasse no duche, a preparar-se para o ir buscar… esta possibilidade, apenas uma entre muitas outras e nem sequer a mais provável, agradava-lhe sobremaneira. Acariciava a ideia como a uma doce fantasia: entrar directamente na banheira para se lhe juntar, um reencontro perfeito e apaziguador após tantos meses de espera e abstinência.

Sabia que esta parte era pura fantasia, sabia que mesmo que ela estivesse a tomar banho, não seria ele, qual príncipe encantado, a entrar na banheira, mas sim ela a sair de lá, feliz com a surpresa, mas ligeiramente incomodada pelo imprevisto e pelo desconforto da perspectiva do “sexo imediato” – não fazia parte da sua maneira de ser, muito menos neste capítulo em que sempre se mostrara tão cheia de qui pró quos.

Meteu a chave à porta experienciando um misto de furor antecipado e de receio. Como estaria ela após esta separação? E ele? Até que ponto ambos se veriam diferentes?

O silêncio dentro de casa era absoluto, era o silêncio do vazio, ela não estava.

Mesmo assim, num reflexo ditado pelo intelecto, percorreu todas as divisões à sua procura, quanto mais não fosse para confirmar a certeza inicial da sua ausência.

Depois descontraiu. Caiu-lhe em cima o peso da leveza de estar finalmente em casa, em sua casa. A sensação era quase irreal, quase como naqueles sonhos em que se sabe que se está a sonhar, mas ao contrário: sabia que estava acordado.

Primeiro sentou-se no sofá, na sala, esperando a sua chegada e usufruindo o puro deleite do momento. Lentamente começou a reparar nos pormenores: nada estava fora do sítio, ela tinha-se preparado, saltava à vista, não era natural ter a casa tão arrumada. E notava-se que tinha feito limpezas, algo disfuncionais, como quase tudo o que fazia, com toques de perfeição quase exagerada em alguns pontos e de forma algo apressada e até atabalhoada nalguns outros. A casa era, naquele momento, a cara dela, sem tirar nem pôr; uma surpreendente amálgama de perfeccionismo e comodismo. Não lhe era difícil imaginar o quanto lhe teria sido difícil coordenar-se a si mesma, à sua vontade e até ao seu tempo, que sabia gerir, mas preferia deixar fluir, tendo, como resultado invariável, que acabar por fazer tudo à pressa, ou simplesmente desistir e deixar para uma próxima, acabando por sair ficar rotulada pelo seu péssimo sentido de oportunidade – uma forma fácil de definir o próprio caos pessoal que teimava em alimentar por uma qualquer idiossincrasia comportamental que lhe orientava os passos e as acções.

Notava-se o esforço colocado em disfarçar a falta que ele lhe fazia, e também em evitar que recaísse sobre ele o trabalho que obviamente deveria ter sido dela durante aquele período. Um perfeito misto de egoísmo e generosidade, dois traços incontornáveis do seu carácter, que certamente herdara da mãe e que tentava gerir como podia, nem sempre da melhor maneira.

Meu Deus! Como conhecia aquela mulher! E como a desconhecia também! E como a amava!

Fez uma cuidada inspecção a toda a casa: o cenário era o mesmo nas outras divisões: ordem por sobre o caos, arrumação perfeita nuns pontos e desorganização total noutros, limpeza total paredes meias com sujidade mal disfarçada.

Resistiu, com alguma dificuldade, a começar imediatamente a fazer o que faltava, a tomar conta dela e a olhar pelo seu bem-estar e necessidades. Percebeu que seria uma atitude estúpida e inoportuna que ela, tão distraída mas observadora, não deixaria de notar e a que tanto poderia reagir bem como mal. Talvez ficasse agradecida ou então aborrecida pelo seu paternalismo e constante vigilância a que chamava de controlo.

Além disso, estava profundamente cansado, cansado e apaziguado, saboreando o reencontro com a sua casa, o seu espaço, os objectos que tão bem conhecia e que estavam impregnados de si. Lentamente, começou a retomar posse, como que a sofrer um processo de reencontro e reincarnação.

Não ansiava pela chegada dela, sabia que não tardaria. O mais certo era que tivesse ido ao supermercado (revia-o mentalmente, também recuperando-o para si, como a tudo o mais de que estivera ausente) comprar umas coisas de última hora.

Por momentos, hesitou se iria, ele sim, aproveitar aquela pausa inesperada para tomar um banho. Optou antes por deitar-se em cima da cama e respirou profundamente experimentando, à suave média luz de fim de fim de tarde, uma profunda sensação de bem-estar, dando-se conta de que não era apenas ela que lhe faltara todo aquele tempo, mas antes todo o conjunto de vida, da sua vida, de que ela fazia também parte.

Lentamente descontraiu, deixou de pensar, entregou-se apenas à beatitude das sensações e assim estava quando ouviu a chave a entrar na fechadura; sentiu até o ligeiro sobressalto da surpresa experimentada (por ela ou pela chave?) ao perceber que a porta estava fechada apenas pelo trinco.

Depois ela entrou em casa, adivinhando já a sua presença e, de súbito, a vida voltou a ser real.

Ana Maria Monteiro
Mais histórias em: https://www.facebook.com/Ratos-de-Livraria-150223051802796/photos/?tab=album&album_id=150236811801420
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