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Lugar de Velho

​por Carol Stampone

Hoje lembrei de um documentário que assisti na faculdade, muitos anos atrás. Era aula de antropologia e o filme era sobre um povoado em algum lugar distante, dum mundo desconhecido para mim, em que no fim da vida, os velhos costumavam subir uma montanha para morrer. Lembro que na altura fiquei triste e assustada. Pensei com os meus botões: ‘quem é que faz uma atrocidade dessas com um ser humano?’

Hoje descobri que essa montanha também existe aqui.

Não estamos preparados para a velhice. Os nossos velhos não têm lugar na sociedade e nem nas vidas dos seus.

A geração da minha mãezinha, cujos ossos mal aguenta-lhe, ainda sofre o mal de desconhecer completamente o ócio produtivo, ou simplesmente qualquer forma de lazer. O que a mãe fez a vida inteira foi cuidar dos outros. Começou a trabalhar ainda criança. Casou-se ainda era menina. Cuidou do pai, dos filhos, dos netos. Nunca aprendeu a ler, nem tomou gosto pela televisão. Já faz uns anos que só sai de casa para receber a aposentadoria, uma vez por mês.

Minha mãezinha vai fazer 90 anos semana que vem. Já não enxerga quase nada, escuta pouco, anda devagarzinho e faz questão de preparar café novo toda vez que recebe uma visita.

Essa é a última semana que vai passar na casa dela, que um dia foi nossa casa, e que com o passar dos anos foi ficando vazia e fria.

Tudo o que a mãe pede é que a gente apareça para fazer uma visita. Se cada filho, neto e bisneto aparecesse uma vez por mês, ela só ia ter que passar um dia por mês conversando com os seus próprios botões. E no mês de fevereiro ia até poder receber duas visitas no mesmo dia. Mas, toda a gente tem as suas próprias vidas, trabalho, relacionamento, amigos. O tempo é curto para visitar a velha.

Coube a mim dar-lhe a notícia. 

_ Mãe, o médico disse que agora não tem mais jeito. A senhora não pode mais viver sozinha. 

A mãe respondeu que tinha a Maria, a enfermeira que pagávamos para dormir com ela. Eu disse que eu sabia disso, mas que companhia apenas durante as noites não ia bastar. Ela ia precisar de cuidados em tempo integral. 

Tudo o que a mãe disse foi: 

_ a família é tão grande… 

Eu vi a montanha a minha frente. Fiquei um tempo sem dizer nada. Assistindo a minha mãezinha subir a montanha e despedir-se da vida, sem ser um fardo para ninguém. 

O meu irmão mais velho retomou a direção das coisas: 

_ Uma casa de repouso, mãe, lá a senhora vai fazer amigos.

Eu sabia que já fazia mais de cinquenta anos que a mãe não fazia um amigo novo. Ela costumava dizer que os amigos a gente encontra na primavera da vida, depois é só rezar por eles. Costumava dizer também que o presente da velhice era uma família de encher estádio de futebol. E para quê? Se no final ela também ia ter que subir a montanha sozinha? Quis abrir a boca e dizer que a mãe não ia para casa de repouso nenhuma, que ia mudar-se para a minha casa, mas aí lembrei do meu marido dizendo que achava que não ia dar certo. Afinal, tínhamos uma rotina na qual ela não se encaixaria, as crianças iam sofrer com a presença antiquada dela.

_ E lá a senhora vai ter enfermeiros especializados, para cuidar da senhora o tempo todo.

A mãe enervou-se e disse que nós todos sabíamos que ela não simpatizava com enfermeiro. Enfermeiro era sinal de rendição a morte. Urubus ao redor da caetana.

Lembrei que a mãe tinha me contado, com tristeza e sem aceitação, que todos os conhecidos dela que tinham sido metidos no asilo, tinham padecido de morte morrida antes da hora. E era culpa dos urubus vestidos de branco, do prédio onde todos os quartos são iguais, todas as cadeiras são iguais, todo mundo é obrigado a comer o mesmo e nada tem história.

A mãe costumava repetir que tinha duas coisas que a mantinham vivas: polir a sua história e ver a família crescer.

A verdade é que ela já não dava conta de limpar a casa que tanto amava. Tínhamos contratado uma mocinha para limpar a casa duas vezes por semana. A mãe insistia que ela não fazia nada direito. Mas mais por precisão do que por gosto, a mãe foi deixando a mocinha ficar. Ainda assim, quase sempre, quando a gente chegava a casa da mãe, lá estava ela, agarrada a um paninho, polindo as fotografias.

A casa da mãe tem fotografia até no banheiro. Fotos do falecido, dos filhos, netos, bisnetos, fotos de casamento, batizado, aniversário, formatura. Ultimamente a mãe encasquetou que as fotos preferidas dela eram as de formatura, porque a educação era um bem eterno.

Teve uma vez que a minha menina mais nova perguntou para a minha mãe:

_ Vó, porque faz tanta questão de ter as fotografias da família em toda a casa, se a senhora já não enxerga mais?

A mãe respondeu que enxergava sim, com os ossos. Mais tarde, confessou para si mesma, que precisava das fotografias para continuar lutando contra a morte.

Naquele difícil tarde de domingo eu lembrei de tudo isso. Sabia que enviar a mãe para o asilo era quebrar as suas resistências contra a morte. Mas nenhum dos meus irmãos tinha tempo. E eu tive que escolher entre o meu casamento ou a minha velha mãe. Não fiz diferente da maioria. Agarrei-me a pseudo importância da minha vida e fechei os olhos para a triste partida da mãe para a casa de repouso.

Menti para mim mesmo. ‘Sim, ela vai estar melhor ali’. Dei as costas e deixei a mãe subir a montanha sozinha. Escrevi na agenda que ia visitá-la no domingo.

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