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NÃO É TÃO RUIM SE VICIAR

Comecei a ler um pouco tarde, aos vinte anos para ser exato. Eu não possuía interesse pela leitura, mas as palavras de Manuel Antônio de Almeida foram o prelúdio para o meu vício; daí para frente só desandou. Eu me emocionava com as estórias narradas em primeira ou terceira pessoa; e, admito, mesmo sabendo chorei quando Diadorim morreu – choro até hoje. Sou do tipo que cheira os livros e os mantem com o maior zelo possível. Ao final de cada leitura agradeço aos escritores, isso se tornou meu ritual particular 
Eu me tornei um rato de sebo (tive altas crises de rinite por isso) e caçador de promoções da Saraiva ou Submarino – nem ouso visualizar a Estante virtual, é um ópio. Criei minha pequena biblioteca e sempre acabei comprando mais livros do que lia, até que resolvi dar uma maneirada e ler tudo o que tinha antes de realizar novas compras. O problema mesmo se deu quando percebi que era um Livrólatra, que não conseguia ficar sem ler. Um dia ser ler é um dia perdido. Nem que fosse uma página eu precisava ler, me tornei meio que escravo disso. A leitura de certa forma me embriaga. 

Isso foi piorando, pois eu não estudava com tanto afinco os doutrinadores que nem lia os arianos, franceses ou os conterrâneos. Eu não saía de casa só para ler. Quase perdi um namoro em decorrência do vício. E, é impossível ter um grupo de apoio aos Livrólatras porque se juntar todos em uma roda garanto que saíra muita poesia. Os livros têm algo mágico, uma química que poluí o papel com fantasias que, por vezes, queríamos que fossem nossas. 

Minha família começou a reclamar, falaram que eu deveria sair mais e parar de gastar dinheiro com livros. Mas, são tantas as estórias que nos prendem, é como um cárcere privado facultativo. Eu dizia que podia parar quando quisesse feito qualquer viciado, porém, no fundo eu sabia que era mentira. Se eu ficasse um dia sem ler sentia uma abstinência anímica. E percebi, também, que não existe tempo para se viciar, alguns conseguem ser mais fortes e suportar uma leitura casual (ler socialmente), mas quem têm necessidade sabe o quão difícil é – ter um mundo a sua frente e um desejo gigantesco de explorá-lo. 

Outra coisa que incomoda é o fato de querer contar o que se lê e não encontrar alguém para ouvir. Todas as vezes que eu ficava bêbado contava sobre os escritores brasileiros, acho que ninguém dava a mínima, mas eu continuava. Era um chato ilimitado. As pessoas não entendem sobre como é ser um livrólatra, a gente não quer somente acumular o conteúdo, mas quer também compartilhá-lo. Quem é sabe como é, não se quer cura se quer emoção, se quer ouvir qualquer conversa e construir um diálogo, bem como se encontrar em uma poesia, conto, crônica, romance, entre todos os gêneros literários. Não há tratamento, é doença terminal.  

Se puder não seja um livrólatra, mas se quiser, esteja preparado para alimentar sua vida de sentimentos que não são seus, mas você finge que os são, como asseverou magistralmente Fernando Pessoa, no poema ‘O poeta é um fingidor’. As pessoas são poetas também, mas só descobrem isso na ausência de enredo.

Danillo Camargo

https://www.facebook.com/danillo.petrus

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2 Comentários

  1. Henrique disse:

    Muito bom! Parabéns e sucesso.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Ivan Cardoso disse:

    Literatura, o melhor dos vícios.

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