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A Luz Vermelha por Sidnéya Day Ramos – Amora

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Emília era uma mulher comum como tantas mulheres. De bom espírito, alegre e sempre muito ativa, no bairro pequeno onde morava não havia quem não a conhecesse. Dona Emília vivia na memória de todos, quando ela viajava para ver os netos que moravam longe, parecia que a rua calava e o bairro guardava um certo vazio, mas quando ela chegava tudo voltava a ser como era, parecia que cada coisa estava em seu lugar novamente. Mas não pensem que tudo era vento e brisa, por onde ela passava também arrastava uma ventania que às vezes derrubava e fazia estragos, essa mulher tão normal como tantas outras nasceu com um pequeno defeitinho, dizia o marido “uma língua que não cabe na boca”.

Dona Emília não fazia por mal, pelo contrário, tinha bem querer a todos, mas não guardava segredos, eles não cabiam dentro dela, por mais que quisesse guardá-los, eles escapuliam tão rapidamente que quando percebia já haviam pulado fora da boca e então era tarde demais, e as palavras já se iam tomando outro rumo. Igualmente não levava desaforo pra casa, de boa que era também não media as palavras quando mexiam com ela. Ficava malcriada e perdia a linha, depois de metida em confusão chegava em casa e sentia-se mal.

O marido aconselhava, ela dizia-se arrependida e tentava remendar o que fazia, de remendo em remendo remediava-se, bem no fim tudo se ajustava, mas volta e meia lá vinha ela outra vez com outra novidade. E lutava ela com sua língua, chegara a sonhar que a própria língua era um dragão que cuspia fogo e disputava contra o seu corpo, como se cada coisa fosse uma coisa separada de si! Ah, não podia viver desse jeito e o jeito era cortar o mal pela raiz.

Mas dizia para si “confesso que não aguento, é tanta coisa pra guardar que não cabe dentro de mim, preciso dividir, preciso informar, preciso contar, só atualizar e assim renovar o ar, mas minha língua não obedece, conta mais que a boca e assim não posso continuar, ei de escutar meu marido que tão calado vive ao meu lado, é tão sábio que fala só o necessário, a de ser porque nasceu com uma língua pequena, que culpa tenho eu!”, dizia para desculpar-se a si mesma, mas sabia que não era isso. Então começou a estudar várias táticas, pensou até em fazer uma cirurgia, mas viu que não surtiria efeito. Toda vizinhança começou a estranhar, não havia mais notícias, não havia mais causos nem verdades, dona Emília estava fora do ar. Havia ficado doente? Nunca tinha ficado tanto tempo fora. Se tivesse viajado saberiam, já teria até voltado. Todos estavam sem notícias dela, da rua ou de qualquer coisa.

Todos queriam saber, mas ninguém sabia informar “já que quem fazia bem esse papel era ela mesma”, as notícias estavam atrasadas e novidades não existiam, até que uma luz vermelha se acendeu e todos se combinaram para fazer uma reunião na igrejinha, lembraram que todas as quartas era dia que ela reservava para se melhorar “dizia ela”.

Mas nada de dona Emília, só havia uma mulher cabisbaixa sentada no último banco, tão só e tão calada que não se ouvia nem o seu respiro. Então o vigário pediu que a mulher se aproximasse, todos olharam com grande espanto, não podia ser… será? “era ela mesma, tão recatada, tão calada, tão controlada que já não sorria, que já não trabalhava, que já não gastava a língua e mal existia dentro dela aquela mulher chamada Emília.

Amora

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2 Comentários

  1. História muito interessante. Passar as notícias, os boatos, as mentirinhas pra frente e as verdade é um papel bem complicado. Tem gente que acha importante e outros que criticam. Mas, no fundo, 90% gosta. kkkkkk Abraços

    Curtido por 1 pessoa

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