Portal da escrita

Início » Contos » O segredo do baú

O segredo do baú

Conto escrito em mais um exercício de criação do nosso grupo.
Parabéns aos autores!!! Ficou incrível 🙂

Escrito por:

Bruna Giroldo; Renato Silva; Nara Miranda; Joyce Mesquita; Sabrina Dalbelo; Andre Luiz; Tarcísio Silva; Monýh Oliver; Zumlira Carvalheiro; Joedyr Bellas; Any Olliver; Eduardo Sussumo; Jeronymo Artur. Ana Maria Moteiro.

baú.jpg

– Não! Por favor! Eu prometo que nunca mais faço isso!
– Deveria ter pensado melhor nisso antes minha querida. – Ele disse ao sair do pequeno quarto deixando apenas uma fresta de luz através da porta fechada. Agora, só um milagre poderia salvá-la.

Duas horas antes…

Afonso e Samira chegaram ao pequeno cinema da cidade e observavam as duas únicas opções.
– Hum… que tal assistirmos Carrossel 2? – perguntou Afonso.
– Sim. É melhor que ver o novo Caça Fantasmas. – disse Samira, convicta.
Se for assim prefiro não assistir – exclamou Afonso – Toda vez que vamos fazer algo juntos só fazemos o que você quer e eu como fico? Se você pensa que eu vou esquecer o que você fez na sexta-feira está muito enganada. Essa simples frase foi capaz de gelar até a alma da samira.

Não sei o que uma coisa tem a ver com a outra, Afonso. Não foi nada demais!
Samira mentiu, pois só de lembrar dos fios de cabelo louros, ela se arrepiou. Foi algo demais. Com certeza foi.
– Tem tudo a ver com você não respeitando minha liberdade e meus limites. Não quero você colocando o nariz onde não é chamada.
– Se com dois meses de casamento você já está cheio de segredos, imagine daqui há quarenta anos!
Samira passou a mão pelos cabelos castanhos.
“Castanhos, não loiros.” ela pensou.
– Só preciso de um pouco, só um pouco de privacidade, amor. Por favor! Me prometa que não vai mais abrir aquele baú. Por favor, pro seu bem, quer dizer, pro nosso bem.
Aquele arrepio veio pelas costas de Samira desta vez.
– Tudo bem, não mexo mais. Não me interessa o que você guarda lá.
“Talvez interesse muito, muito mesmo “, ela pensou.
– Que tal você escolher o filme? Carrossel então? – Afonso disse animado, beijando o rosto de Samira.
– Pode ser, embora seus favoritos sejam os de serial killer, que eu sei…
– Podemos aprender muito com eles, Samira.
Afonso sorriu, segurou a mão de Samira e se dirigiu à bilheteira.
– Duas entradas pra “Carrosel” e dois sacos grandes de pipoca e coca cola.
Samira estava aflita, confusa, mas não teve coragem de soltar a mão do homem que guardava mechas de cabelos como suvenir, afinal, ele era seu marido. Casamento é pra sempre.

A sala de cinema estava, incompreensivelmente, para uma tarde de verão, muito vazia.
Talvez todas as crianças que tivessem interesse naquele filme estivessem na escola, talvez aquele fosse mais um filme desinteressante…talvez.
Fato é que ambos pouco se importavam com o filme, com a pipoca, ou com a companhia de outras pessoas no cinema.
Samira estava mais preocupada em contar tudo para Afonso e também continuava consternada com tudo que Afonso evitava lhe contar.
“Cineminha furreco e uma tarde perdida com bobagens”, pensou Samira.
Eles mal se falaram durante o filme e todas as vezes que suas mãos se encontraram entre os sacos de pipoca, eles recuaram.
O clima não era bom e eles sabiam disso.

O filme acabou com um final feliz como sempre. Samira e Afonso levantaram-se das poltronas como todo mundo no cinema, sem se olharem ou tocarem, tão frios quanto a pipoca que mal tocaram. Passaram pela bilheteria e saíram do cinema em direção ao estacionamento, onde o sedan preto de Afonso os esperava. O fim do dia levou consigo o calor e o sol poente jogava sobre o lugar diversas sombras fantasmagóricas.
Samira apressou o passo e assim que Afonso pressionou o botão e destravou a porta do carro ela tratou de projetar seu corpo para dentro. Sentia frio.
Subitamente, sentiu uma mão fria tocar em seus ombros, fazendo seu coração gelar. A respiração faltou por alguns instantes.
– Não vamos sair daqui hoje até você me contar porque estava mexendo nas minhas coisas. – Era Afonso, com uma expressão totalmente desequilibrada no rosto. Seus olhos estavam vermelhos de ódio.
Samira engoliu em seco, sentindo a garganta como se estivesse repleta de cacos de vidro. Tentou se desvencilhar, mas o marido encobriu toda a porta com seu corpanzil assustador. Sob a cabeça de Afonso, ela via os últimos raios de sol deixando a cidade. Queria poder segui-los em direção ao horizonte longínquo.

Samira permaneceu muda por algum tempo. A presença intimidadora de Afonso fazia com que ela se arrependesse amargamente do que tinha feito, do que tinha visto naquele baú. Lembrou-se do antigo conto que sua mãe lhe contava sobre o Barba Azul e se encolheu no assento. A lembrança veio novamente: não eram somente os fios louros! Não! Havia mais… Havia aquele pedacinho de pano… pequeno… manchado de vermelho. A voz firme de Afonso repetiu mais uma vez, acordando Samira de suas recordações: – Estou esperando, meu amor! Por que estava mexendo nas minhas coisas? A mulher, com os lábios tremendo, procurava uma solução sem encontrar. Afonso sorriu e disse: – Tudo bem! Tudo bem, meu amor! Talvez, uma voltinha refresque sua memória e te ajude a me dar a resposta que quero! Ele ligou o carro e partiram.

Samira suava frio, não sabia para onde estava sendo levada, o olhar ameaçador de Afonso a paralisou e a fez se questionar:
Quem é este homem? Porque definitivamente não era o Afonso que ela conhecia ou melhor, pensava que conhecia?
Olhando para fora, percebeu que ele havia tomado uma estrada de terra ladeada de uma densa vegetação.
O desespero tomou conta de Samira, ela sabia que precisaria fugir daquele total desconhecido! Mas não agora. Por enquanto o melhor era permanecer quieta. Enrijecida de medo, o único movimento do seu corpo era um tremor involuntário. Sentia-se gelada, literalmente gelada de pavor. Nesse momento, porém, ela percebeu surgindo dentro de si, de maneira ainda tímida, outra Samira. Que estava alerta e analisava a situação procurando saídas. Sem mover a cabeça, sem mexer um músculo, começou a prestar atenção no caminho tentando visualizar placas na estrada, identificar pontos de referência.
De repente o carro parou. Nada existia nas proximidades a não ser a vegetação densa iluminada pela lua cheia. Ele a puxou para fora. “Meu Deus, é aqui que ele vai me matar!”
Não ainda. Firmemente segura pelo braço, ela foi arrastada matagal adentro até chegarem a uma pequena construção de tijolos. Uma casa de força há muito abandonada. Um cubículo sinistro, sem janelas.
“Ele vai me matar aí dentro e ninguém vai encontrar o meu corpo!”
Surpreendentemente, Afonso tirou uma chave do bolso e abriu a porta. “Como ele tem a chave dessa porta, Santo Deus?”
Foi jogada para dentro com brutalidade. Caiu sentada no chão áspero e úmido.
– Agora você vai ficar aí, sua canalha! Vai ter muito tempo pra pensar na sua burrice. Quando eu achar que você já se arrependeu, venho te buscar. Se ainda estiver viva te levo de volta, senão te enterro aqui mesmo, vagabunda.
– Não! Por favor! Eu prometo que nunca mais faço isso!
– Deveria ter pensado melhor nisso antes minha querida. – Ele disse ao sair do pequeno quarto deixando apenas uma fresta de luz – a luz que vinha da lua cheia – através da porta fechada.
Ao ouvir a chave virando na fechadura ela gritou em desespero:
– Afonso, eu não sou loira!
A resposta foi uma gargalhada seguida de uma resposta dada já ao longe:
– Nada que um descolorante não resolva, amor da minha vida!
Agora, só um milagre poderia salvá-la.
E o milagre aconteceu, na forma de um acesso de raiva. Um silencioso porém intenso acesso de raiva vindo da outra Samira, a qual agora se manifestava abertamente, relembrando o quanto sua mãe havia sofrido com o marido violento. Como tinha sido terrível assistir a tantos anos de tormentos sem entender por que sua mãe não reagia, não denunciava, não fugia para longe. Não, a história não ia se repetir com ela. Aquele psicopata maldito não ia conseguir aniquilá-la. Isso ela definitivamente não permitiria.
Com os olhos já acostumados à escuridão, começou a procurar em volta uma forma de escapar.

Ah, aquele baú. Maldito baú. Não sei nem por que fui querer olhar aquela coisa tão insignificante no fundo do armário do Afonso. Também sua burra por que tamanha curiosidade? Estava tudo indo bem. Um cineminha no fim de semana, uma viagem mais esticada de vez em quando, uma cerveja gelada em umas noitadas não combinadas, um churrasquinho na esquina… Mas não, tive que fuçar a parte do armário do Afonso, achar aquele maldito baú. Ah, Samira. Por que também aquele desgraçado foi deixar o baú dentro do armário e aberto? Um baú sem chave no fundo do armário dividido com a esposa. Ou o burro aqui é ele ou ele queria que eu visse o que tem dentro do baú. Seus segredos mais sórdidos, suas reuniões noites a dentro no escritório, suas escapulidas em algumas madrugadas com desculpas esfarrapadas, sem pé nem cabeça. E a otária aqui acreditando. Amorzinho pra lá, amorzinho pra cá. E agora?

E agora? Insistia a outra Samira. Não a recém-chegada, a de sempre. A moça recatada e medrosa, parecida com as donzelas das novelas, que volte e meia eram salvas por seus príncipes. Mas não! Essa Samira teria que partir. Agora não havia príncipe, não havia nada. A não ser um resquício, uma centelha de fé e uma repentina e enorme vontade de viver.
A jovem então respirou fundo, fechou os olhos e fez uma singela preces ao céus – pedindo ajuda? – Não! Pedindo forças.
Assim, ao abrir os olhos marejados, avistou uma enorme brecha no podre telhado… Avistou uma possível saída…

Ela arrasta um pequeno banquinho de madeira esquecido em um dos cantos do cubículo, sobe e estica os braços em direção ao telhado, mas a brecha está fora de seu alcance.
De repente ouve passos se aproximando do lado de fora, o que a deixa aflita.
Então o barulho na porta, lentamente vai se abrindo, a penumbra revela o contorno da figura feminina, sobre os saltos altos, com longos cabelos caídos sobre os ombros.
Samira fica aliviada, permanecendo ainda imóvel. A desconhecida avança uns passos em sua direção, ela então o reconhece, e também aquele vestido que estava dentro do baú. Perplexa ela grita: – Afonso! Por que está vestido assim? O que significa isso?

Desculpa, Samira – ela percebe a voz dele embargada

– Como é?

– Quando eu vi que você tinha mexido naquele baú, eu… eu não sabia o que fazer e…

– Me deixa ir embora, Afonso, as coisas não precisam ser assim…

– Ele teve medo que você o deixasse se soubesse que – abaixou a cabeça, movimentando as mãos próximas ao corpo, do tronco à cintura.

– Então você não vai me matar?

– Eu? Matar você? Samira, eu te amo…

– Você… me… – ela desceu do banquinho e deu um passo à frente – ama?

A porta aberta amenizara a escuridão, os fios loiros destoavam da barba por fazer que, até então, era pra ela o que ele tinha de mais charmoso.

– Amo – ela ainda o ouviu dizer antes de começar a rir – porque você está rindo?

– É que – deu mais um passo – primeiro eu achei que tinha casado com o Barba-Azul, agora descubro que casei com a Rainha do Deserto e…

– Por favor, fique onde está!

– Eu to rindo pra não cho… – Samira voltou o outro pé antes de tocar o chão à frente – O que foi?

– Ele não pode saber que eu estive aqui, por isso eu não tirei a barba e por isso você tem que ficar onde está.

– Ele quem, Af… – só então ela deu-se conta: “ele teve medo”, “ele não pode saber”.

– O Afonso!

– Então você é a…

– Samira.

Não era pelo vestido, um tomara-que-caia rodado que ela até usaria para uma noite de gala. Não era pelo salto alto que, olhando assim, até lembrava um daqueles que há muito ela não usava. Não era nem pela barba, que não haveria mal algum imitar num carnaval. Aquele ímpeto de coragem e ousadia era o resultado do que ela aprendera com as vítimas de alguns daqueles serial-killers em que ele devia se inspirar: às vezes a liberdade está a um chute no saco de ser conquistada.

Não precisou sair de onde estava para acertar o alvo em cheio. Afonso levou as mãos por entre as pernas antes de cair no chão em posição fetal, enquanto Samira alcançava a porta. E não teria sido nem por esquecer a chave na porta – o que talvez a partir daquele momento ela nunca mais se deixasse esquecer. Aquele homem a deixara em dúvida quanto a algumas escolhas que tinha feito, mas não sobre quem ela era:

– Eu não sou loira, Afonso – ela disse antes de puxar a porta, girar a chave e dar de cara com aquele matagal à sua volta novamente – “Oh no not I…” – ela cantou a música que já não saía da sua cabeça, enquanto dava os primeiros passos pra sair dali o mais rápido que pudesse – “I will survive…”

O dia está lindo e Samira sai da pequena casa adentrando a vegetação sempre com aquela música a carregá-la de energia.

Mais e mais enérgica, Samira dá-se conta de que a música ecoa apenas dentro da sua cabeça, que apesar de cantar a plenos pulmões, da sua boca não sai som algum.

Atordoada olha em volta, a casa não se vislumbra, não há uma ave no céu, não mexe uma folha que seja.

Recorda-se do conselho da mãe quando era pequenina e tinha pesadelos: – Quando não souberes se estás a dormir ou acordada, ou sempre que queiras acordar e não consigas, fecha os olhos e belisca-te.

Samira fecha os olhos e começa a beliscar-se.

Dá-se fisicamente conta do contacto do seu corpo com tecido, com outro corpo…

Abre os olhos, a seu lado Afonso respira calmamente, mergulhado num sono profundo.

Senta-se na cama completamente acordada e incomodada.

Diabo de sonho!

De certeza provocado pela porcaria de filme que vimos ontem à noite!

Levanta-se. Não sem antes olhar de novo Afonso. Estupidamente sente-se culpada: como foi possível sequer em sonho, que tais horrores lhe tenham passado pela cabeça! Acaricia-o com suavidade para não o acordar.

Dirige-se ao armário e procura um vestido bem florido para mais um dia de sol e felicidade conjugal. Este, sim este, Afonso gosta sempre de me ver com ele.

O olhar cai-lhe sobre o pequeno baú do marido. Nunca o abriu nem sentiu curiosidade. Sempre pensou que estaria cheio de pequenas lembranças, fotografias, cartas, sabe-se lá.

Mas hoje e depois do sonho…

Samira baixa-se e abre lentamente o baú, presa de uma estranha excitação.

O seu conteúdo revela-se inócuo, como calculava.

Ainda enervada, mas carregada de sentimento de culpa, fecha de novo o baú muito devagar.

Está tão perturbada consigo própria que nem se apercebeu ainda da sombra projetada no chão por uma figura alta, loura, com barba e de vestido, num esgar de sorriso e lágrimas nos olhos.

Afonso segura uma faca erguida no ar. Ao longo da lâmina brilha sinistramente a luz refletida pelo sol.

Anúncios

Deixe seu comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: