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CONTOS DO MONGE FLÁVIO O Sacerdote Feiticeiro

 

monge.pngEste fato ocorreu há poucos anos, no interior de Pernambuco. Visitei uma freguesia e fui parar em uma povoação ao pé de uma bela serra. As pessoas eram cordatas e muito comunicativas. Mas, pareciam temer alguma coisa: um intenso pavor dominava aquela gente. Percebi, por fim, que quem mandava no lugar era o padre.

Vivia-se uma ditadura religiosa, como nos tempos de Calvino e Savonarola. O padre elaborava suas próprias leis e fazia sua própria interpretação das Escrituras. A aparência do velho era aterradora: cara sempre fechada; magérrimo como um zumbi; alto e ereto; a barba era negra, abundante no começo, mas se afunilando à medida que chegava à cintura; pendurado ao pescoço, um crucifixo de ouro. Estava sempre de batina e carregava um báculo episcopal nas mãos.  De qualquer forma, tinha porte majestoso.

Descobri que ele conseguira o báculo de um bispo verdadeiro que fora enfeitiçado, desaparecendo sem deixar vestígios. O pobre homem ainda vivia na povoação, vagando pelas ruas e casas na forma de um rato!

Isso mesmo, Padre Santos era um consumado e vingativo feiticeiro!

À noite, ele soltava uma mulinha preta, a quem todos prestavam reverência, oferecendo-lhe um tipo de culto: era uma forma de zoolatria. Mais surpreendido fiquei quando, convidado pelo padre a cear em sua casa, ele narrou a história da mula:

– Ela era uma doce jovem, monge. Linda e sedutora. Uma mulata formidável, de lábios polpudos e pele macia. Apaixonou-se por mim, quis encaminhar-me à perdição. Por isso, castiguei-a. Recorri aos antigos manuscritos de Merlin, Bruxa de Évora, Circe… Assim, transformei-a nessa mula! Compadecido da pobre, que se via agora sem beleza alguma, instituí o culto ao animal.

E bebendo um cálice de vinho, ele finalizou:

– Assim procedo com aqueles que se põem no meu caminho, monge! Em nome de minhas crenças, sou fervoroso como a caldeira do inferno!

Ao dizer isso, vi-o sorrir pela primeira vez.

Tarcísio José da Silva

 

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2 Comentários

  1. Aristides Dornas Júnior disse:

    Impressionante fábula que só pode ocorrer em terras brasilianas, onde o povo é crédulo por demais e os poderes do feitiço alcançam castigar os incrédulos inocentes.

    Curtido por 2 pessoas

    • gulliver1975 disse:

      É verdade, Aristides. A religião pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal. Depende de quem faz uso dela. As tiranias religiosas eram comuns no Brasil como foram em países da Europa na Idade Média.

      Curtido por 1 pessoa

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