Portal da escrita

Início » Contos » De férias no Inferno

De férias no Inferno

14184312_1216258595082189_6975273009854745833_n

A notícia não chegou a sê-lo, antes se foi entranhando lentamente.

Primeiro, as imagens radiográficas algo suspeitas, depois os exames que se seguiram até à biopsia. Finalmente, os resultados, quando a convicção íntima já se instalara.

A descrição sumária e quase cor de rosa do que se seguiria. “Encare esta fase como um interregno, umas férias”, dissera o médico.

Quase de imediato, o início do longo calvário.

Depois, tudo o que já se sabe e de que se ouviu falar, acrescido do que não se sabe, porque não é dito, porque não há palavras, porque é tão pessoal e distinto de pessoa para pessoa – um novo mundo interior que se abre para cada um que tem de o viver e onde se está, como nunca (e como sempre) absolutamente sozinho.

E ainda há o mundo exterior. O mundo que continua a girar sobre si próprio, indiferentemente – tal como cada ser vivo que o habita. Mas há que encará-lo e permitir, ou não, que ele nos encare.

E essa é mais uma opção pessoal. Como tantas outras que há que fazer a cada momento, mesmo numa situação destas para a qual não houve opção possível.

E há a comiseração e as mensagens de apoio, os apelos à coragem, as palavras de ânimo e consolo.
Por favor, calem-se, é pior.

Não há consolo possível!
Há o ser-se que perdura. A insegurança que teima em permanecer, a fragilidade, as dores, o cansaço cuja origem já não se identifica, a dignidade que se quer manter, as lágrimas que não saem, o amor que não se revela, amor pelos que se ama (e, igualmente impotentes, sofrem), mas amor também por quem se é, por aquela pessoa que vive em nós e que desejaríamos mais bem tratada por uma vida que segue leis próprias e onde não há lugar a conceitos morais, como o bem e mal, certo e errado, justo e injusto.

E ainda há os cabelos que caem (não é o pior, sabe-se, mas dói na alma). Um por um agora, às mãos-cheias a seguir, depois mais alguns. Um corpo que se despe, como que despedindo-se de si mesmo. E em cada cabelo que cai, a certeza (ou desejo?) de que renascerá mais tarde, no fim de tudo (terá fim ou será o fim?).
As idas ao hospital, os exames que não acabam, toda a espécie de intervenções, os tratamentos, o corpo clínico afável e distante, os funcionários administrativos primorosamente programados para a sua polidez automática.

A vida, essa continua, paralelamente a tudo o resto. Lá está esperando pelo regresso à normalidade (chegará a acontecer?).

De férias no inferno, o único desejo a que há lugar é de que terminem breve.
De preferência regressando a casa.

Ana Maria Monteiro
Setembro de 2016

Mais histórias em: https://www.facebook.com/Ratos-de-Livraria-150223051802796/photos/?tab=album&album_id=150236811801420

Anúncios

1 Comentário

  1. Aristides Dornas Júnior disse:

    Quando o inferno chega até nós, o melhor é vivê-lo junto com aqueles a quem se ama e desejar que tudo seja passageiro, como passageira é a vida que vivemos, cada qual em sua condição existencial.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe seu comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: