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CONTOS DO MONGE FLÁVIO O Rei Dos Peixes

Há alguns anos, um caso de mortes no litoral de uma pequena cidade, atraiu minha atenção. Falava-se em um “Fantasma das Águas”. A primeira pessoa que morreu foi um político, um vereador que, apesar de ser conhecido por suas corrupções, ainda se mantinha no poder. Era responsável por um grande número de desvios de verbas, por comercializar com a merenda destinada às escolas públicas, por desviar remédios da farmácia popular, por falsificar carteiras de motoristas e títulos de eleitor.

Em um domingo, ele banhava-se no mar com sua terceira esposa, uma jovem de 20 anos (ele teria uns 55 anos ou mais). A mulher só deu pela sua falta dele lá pela tardinha, quando as pessoas já iam embora e os pescadores retornavam de seu trabalho. Como estava na areia, procurou-o pelas barracas e olhou o mar para ver se o encontrava, pois sabia que ele adorava ficar boiando. Preocupada, a mulher voltou para casa e acionou a polícia. Mas, o vereador Teixeira só reapareceu na manhã seguinte, boiando, mas sem vida, com o corpo semidevorado.

Seguiram-se um advogado corrupto, a dona de um prostíbulo, um médico que só atendia por dinheiro, cobrando muito caro. Também morreu, nas águas do mar, um líder de um suposto movimento social em defesa dos pobres – esse líder, que nada tinha de pobre, possuía nada menos que três coberturas na capital e uma infinidade de terras no nome de outras pessoas.

Todos desapareciam e só reapareciam depois, devorados parcialmente. Alguns pescadores falaram-me que viam, vez ou outra, uma alta barbatana negra cortando as águas na direção da praia. Muito crédulos, eles confessaram que aquilo era um fantasma marinho, que vinha fazer justiça, punindo os homens e mulheres que tinham muitos crimes.

Apesar de pesquisar em diversos livros, não encontrei nada a respeito do assunto. Resolvi acompanhar um grupo de pescadores para ver se avistava o tal fantasma. Fiquei a noite toda junto deles em um pequeno barco, contemplando o mar à luz da lua cheia.

Então, eu vi…

Vi uma longa barbatana negra e reluzente que cortava as ondas em direção ao barco, com o qual se chocou estrondosamente. Raul, o dono do barco, que estava debruçado sobre a amurada, caiu no mar.

O que se seguiu foi horrível. O pobre gritava desesperadamente enquanto um enorme peixe o devorava. Vi perfeitamente a criatura: um tubarão de uns 10 metros, preto como piche, com olhos completamente vermelhos e dois chifres de touro projetando-se da cabeça.

Os três empregados de Raul apavoraram-se. Eu comecei a rezar em voz alta, proferindo orações em latim. O peixe levantou-se das águas, ereto, revelando-se em toda a sua formosura e terror, com o corpo de Raul na bocarra. Depois, mergulhou e desapareceu nas profundezas. Recolhemos o cadáver destroçado de Raul e notei que o peixe havia deixado um livro sobre ele.

Raul foi a penúltima vítima da fera do mar. Depois, morreu um velho policial, acusado de inúmeras torturas.

Lendo o antigo livro, escrito em grego e com tradução latina, descobri tudo que se passara. O grande Tubarão Negro era o Rei dos Peixes, uma lendária criatura que, conforme narrava o livro, tinha o poder de se transformar em homem (ou era um homem que encantara em peixe). Parece que tem um castelo no fundo do mar. Ele é um implacável juiz que visita diferentes cidades, punindo as pessoas que fizeram coisas vergonhosas:, ladrões, pedófilos, fraudulentos, exploradores. Passa algumas semanas ou meses em uma praia da região e depois vai embora, em busca de novas cidades e novas vítimas (ou réus?).

O livro, que ainda guardo comigo, está escrito totalmente em placas de pedra marinha e está cheio de analogias e símbolos. Por isso, é difícil chegar a uma interpretação definitiva.

Sabem que cheguei a associar esse peixe ao célebre Quinotauro da mitologia gálica?

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