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Farenheit 451 – Ray Bradbury

O pressuposto básico deste que é considerado um dos grandes marcos da ficção científica, ao lado de 1984 e Admirável Mundo Novo, entre outros, é que em futuro distante (em relação ao ano de sua publicação, 1953, mas muito próximo da nossa época) os bombeiros são responsáveis não mais por apagar incêndios, mas, sim, por queimar livros (é bom lembrar que Ray Bradbury é americano e, em inglês, bombeiros são chamados Fireman, isto é, homens de fogo), livros estes que são terminantemente proibidos. Esse pressuposto já seria o suficiente para aquecer (ou, quem sabe, derreter) o coração de qualquer escritor ou leitor apaixonado por livros, mas isso é apenas o começo.

Pois o que mais chama a nossa atenção, principalmente de quem já tem experiência com outras distopias ou obras de ficção científica, é o quanto realista esta obra é. Pois enquanto boa parte de seus companheiros de estante se passam em culturas dominadas por ditaduras, a sociedade refletida aqui é, ao menos no que diz respeito ao direito ao voto, uma democracia. Sim, uma democracia. E não uma democracia qualquer, mas uma democracia onde a maior parte não se importa ou já não sente mais falta dos livros.

E como isso foi acontecer? De um modo muito simples e que é flagrantemente semelhante ao caminho que a nossa sociedade parece estar trilhando. De um lado, temos o poder da indústria cultural e a proliferação de músicas, programas de televisão e obras comerciais e desprovidas de reflexão, isto é, as obras de arte passam a ser produzidas em massa e a ter como objetivo nada além do puro entretenimento. Por outro lado, a educação (como já vemos hoje, principalmente em propostas certos núcleos da direita) passa a ser voltada exclusivamente para conteúdos técnicos e práticos, em detrimento das Ciências Humanas em geral e, em especial, da filosofia e da literatura.

Não é muito difícil imaginar o que acontece: rapidamente as pessoas passam a associar livros com coisas inúteis, mentirosas e que causam sofrimentos e desconcertos desnecessários. E é neste ponto que ele se aproxima novamente destas outras distopias: é uma sociedade em que não há conflito nem sofrimento, porém não há também espaço para reflexão; todos vivem em uma espécie de anestesia coletiva, seja por meio da indústria cultural, seja por meio de remédios muito semelhantes aos nossos antidepressivos, ou seja uma combinação dos dois.

A história em si gira em torno de Guy Monag que, aos 30 e poucos anos, vive uma vida aparentemente muito satisfatório como bombeiro, até que dois encontros colocam em questão toda esta cultura da qual ele faz parte e o faz parar para pensar sobre sua atividade e, principalmente, sobre as consequências de suas ações. É uma história assustadoramente real e, ao mesmo tempo, surpreendente, capaz de mudar vidas para sempre. Sem contar que, em tempos como o nosso presente, levanta questões absolutamente essenciais.

Recomendo fortemente a leitura nesta edição pois, além do texto, temos um excelente prefácio e um posfácio formado por dois importantes prefácios do próprio Ray Bradbury, onde ele se propõe a discutir as consequências desta obra e as críticas que recebeu ao longo dos anos.

Maíra Protasio

Escritora e mestranda em Filosofia da arte, vive desde sempre entre livros e cadernos. Vem publicando desde 2014 resenhas sobre suas leituras em seu blog: doquetenholido.wordpress.com

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