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Trash – Andy Mulligan

É um história levemente inspirada pelo período em que Mulligan viveu em Manila, nas Filipinas, mas poderia ser em Moçambique, Cidade do México ou mesmo Rio de Janeiro. Não é a toa afinal que o filme baseado nesta obra foi filmado justamente aqui, no Rio de Janeiro.

Aqui vamos acompanhar as desventuras de Raphael, Gardo e Rato (ou Jun-Jun), três meninos do lixão, que tem seu início quando Raphael encontra no meio do lixo uma bolsa, contendo uma carteira, com mil e cem pesos dentro, um mapa e uma chave. Não há nada mais intrigante que achar um mapa e uma chave misteriosa, há?

Trash é, desse modo, uma grande aventura, e lida com corrupção, violência policial, racismo, entre outras questões muitas caras à nossa sociedade. É uma leitura angustiante e, simultaneamente, empolgante, daquelas que você começa e não consegue mais parar até chegar ao final.

A única ressalva que eu faria é que, apesar de ser uma leitura deliciosa e extremamente realista, não deixa de ter aquele olhar do inglês branco que vai levar educação para os menos favorecidos de um país de terceiro mundo, principalmente se observarmos a personagem Olivia, uma jovem inglesa, voluntária na escola, que está o tempo todo ou encantada ou chocada com a realidade a sua volta.

O problema é que isso é um visão que coloca a população local em uma vitrine, como se estivéssemos ali para servir ao olhar do branco, rico e europeu, do mesmo modo que vemos, aqui no Rio de Janeiro, estrangeiros visitando favelas em jipes de Safari. Para a maior parte dessas pessoas, nós somos o elemento exótico com o qual elas ficam chocados, admirados ou até mesmo encantados, e então eles vão embora. Mas, para nós, não há nada de exótico; esta é a nossa vida.

Trash é, portanto, um livro muito interessante, divertido e real, que nos traz uma leitura que de fato vale a pena, mas que também deve ser pensado como uma obra escrita por um estrangeiro. Apesar dos múltiplos pontos de vista apresentados na narrativa, falta certa problematização do lugar dos personagens estrangeiros ali pois, enquanto os três meninos são mostrados em suas falhas e qualidades, padre Juilliard e, principalmente, Olivia parecem ter como único defeito confiar demais nos meninos do lixão.

Maíra Protasio

Escritora e mestranda em Filosofia da arte, vive desde sempre entre livros e cadernos. Vem publicando desde 2014 resenhas sobre suas leituras em seu blog: doquetenholido.wordpress.com

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