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O QUINTO IMPÉRIO

Visões de Antônio Conselheiro, na noite anterior à sua “passagem”, em que ele viu o
Fim do Mundo e o retorno do Rei D. Sebastião para governar o sertão, irradiando seu
governo da Bahia até os outros estados e tendo como capital administrativa a Cidade
Santa de Canudos.

Estava o grande profeta que cruzara o sertão da Bahia deitado em seu leito.
Sabia que, em breve, seria arrebatado por Deus ao Reino dos Céus. Enquanto o profeta
descansava e esperava o momento de sua passagem desta para a outra vida, ele
escutava, muito triste, o pipocar das armas assassinas dos homens que lutavam contra a Cidade Santa de Canudos e dizimavam sua população.
E ele viu… Sim, como São João Evangelista na Ilha de Patmos, Conselheiro teve
revelações…
Ele estava de pé sobre uma montanha elevada, cujo pico atingia as nuvens. De
lá, ele viu as cidades pecadoras e o grande palácio onde governava a Grande Prostituta,
Babilônia, chamada de República. Ela estava nua e cercada por amantes, homens do
poder que se deleitavam com ela e, com ela, combinavam a destruição do povo de
Canudos.
– Até quando, ó Deus, devemos sofrer por causa dela? – indagava o profeta –
Por que não fazes justiça ao teu povo?
Em suas mãos, Conselheiro girava as contas de um rosário de ouro. Ouvindo
suas palavras, Deus enviou um anjo que desceu do céu, pegou o profeta pela mão e,
atravessando o espaço, conduziu-o ao mar. Em pé, diante do mar revolto, o profeta
sertanejo, mensageiro de Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora, esperou…
O anjo apontou para uma grande pedra, onde se via uma espada encravada.
– Vai até lá, profeta! Arranque a espada da pedra! – ordenou o ser celestial.
Conselheiro, de cabeça baixa, cumpriu a ordem. Segurou os copos da espada e
puxou-a, retirando-a com facilidade…
E, eis que, tal como acontecera há muitos anos, quando o povo judeu deixara o
Egito, o mar abriu-se. Primeiro, veio um terremoto que abalou os fundamentos da terra.
Em seguida, as águas começaram a se afastar, recuavam de um e outro lado, deixando o leito seco. Conselheiro, agarrado a seu cajado, observava tudo boquiaberto e
maravilhado.
Ele viu um enorme exército, composto por milhares de soldados, armados de
lanças, escudos, espadas, arcos e flechas. Diante deles, guiando-os entre as muralhas do mar, estava o Rei D. Sebastião. Sim! O celebrado rei de Portugal, sobre o qual
profetizaram Bandarra e Vieira. Era ele que, após anos oculto no fundo do mar,
retornava para possuir a terra e libertar o povo do sofrimento – do sofrimento que os
poderosos causavam aos mais fracos; do sofrimento que a Grande Prostituta, a quem os homens luxuriosos desnudavam, causava à gente do sertão; do sofrimento que a bruxa selvagem que habitava um castelo no alto de uma montanha perdida causava a homens, mulheres, plantas e animais – aquela feiticeira poderosa: a Seca!
Vinha D. Sebastião em galopada célere, erguendo sua espada brilhante, gritando
em triunfo, seguido pela multidão de cavaleiros, homens valentes que lutariam pela
justiça e pela liberdade. Conselheiro viu o famoso Carlos Magno e os doze pares da
França. Viu Rolando, o gigante destemido e El Cid. Viu D. Quixote, o mais nobre de
todos os cavaleiros andantes. Viu o Rei Artur e toda a sua corte. E, entre eles, estava
também o destemido Eneias de Troia. E São Jorge Guerreiro, empunhando sua lança
invencível, montado em seu fiel cavalo branco, seguido pelo dragão. Vinham ainda:
Ubirajara, índio romântico de Alencar; Caramuru, o Filho do Trovão; Juca Pirama, o
tupi que enfrentou a morte; João Mata Sete, o Matador de Gigantes; Manuel da
Bengala, o herói que desceu ao inferno. E até o Rei Davi, rei de Jerusalém que derrotou
o gigante Golias.
Não somente homens compunham aquela multidão: vinham também, sobre ágeis
cavalos, as lindas Amazonas de Frei Gaspar de Carvajal, as mulheres valentes de seios
nus e coxas opulentas que manejam arco e flecha como Robin Hood e Guilherme Tell.
E vinham também criaturas saídas do folclore universal: a Boa, terrível serpente
aquática; o Rei dos Peixes, homem que virava peixe ou peixe que virava homem; o
Quinotauro, pai legítimo do Rei Meroveu; Sulanith, a mulher giganta das águas; e
muitos outros…
Era uma multidão sem fim de cavaleiros, vestidos em possantes armaduras,
brancos, negros e índios, mestiços de toda sorte. Atrás de todos eles, voando com longas
asas, vinha São Miguel, o anjo guerreiro que expulsara os demônios do céu. A espada
de Miguel era a mais fulgurante e a maior de todas as armas.
A multidão de soldados invadiu as cidades litorâneas, combateu contra os
poderosos e suas armas de fogo, contra a Matadeira, contra os inimigos da liberdade.
Entraram no palácio da Grande Prostituta, tiraram suas roupas, queimaram-na viva e
derrotaram todos os seus comparsas e amantes. O palácio foi completamente destruído –
não restou pedra sobre pedra.
D. Sebastião tomou posse do governo, tendo Canudos como capital do Novo
Reino. Era o Quinto Império, profetizado por Daniel e Vieira. E, do céu, Nosso Senhor
abençoou aquele povo. Cães e outros animais transformaram-se em poderosos dragões que guardavam a entrada de Canudos, para que nem homens maus, nem demônios, nem a Seca entrassem naquele território sagrado.
Outro milagre que aconteceu foi a mudança do mar. Do litoral, onde vivera a República, ele foi transportado pelos anjos para o sertão, onde passou a irrigar as terras ressequidas e matar a sede do sertanejo com água agora doce e rejuvenescedora.
Os mortos voltaram à vida – bestas, plantas e homens – e povoaram o Novo Reino. A morte não mais existia, nem a doença, nem a fome, nem a guerra. Nem a Seca.
Essa bruxa terrível foi acorrentada pelos cavaleiros de D. Sebastião a uma grande pedra
no fundo do mar.
Tudo isso Conselheiro contemplou antes de sua “passagem” e, à medida que via,
registrava no papel. No outro dia, encontraram o profeta profundamente adormecido,
mergulhado naquele sono que tantos temem. Em seus lábios, havia um sorriso de
felicidade…

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