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Ainda Estou Aqui – Marcelo Rubens Paiva

Em Ainda Estou Aqui, Marcelo Rubens Paiva nos traz uma narrativa extremamente pessoal, onde sobram subjetividade e tom memorialista. A história que vamos acompanhar aqui é, principalmente, a do modo como a vida desta família, uma mãe e seus cinco filhos, foi radicalmente transformada quando o pai do autor, o conhecido ex-deputado Rubens Paiva, é “desaparecido” pela ditadura, o que presumidamente significa que morreu sob tortura.

Uma das grandes qualidades deste livro é que o autor o usa para trazer à tona uma discussão mais ampla e profunda sobre a questão da tortura na ditadura, a questão da anistia e a falta de responsabilização real dos responsáveis pelas sessões de tortura, assassinato e desaparecimento de corpos. Simultaneamente, nos vemos diante de um filho tentando, por um lado, reconstruir a imagem do pai desaparecido já há mais de 40 anos e, por outro lado, tentando lidar com o envelhecimento da mãe que, com Alzheimer, tornou-se completamente dependente dele e passa a maior parte do tempo em frente a uma televisão.

Ainda Estou Aqui acaba se tornando, deste modo, um livro que busca pensar sobre a memória, a partir dos acontecimentos que cercam a vida de Rubens Paiva (filho). Justamente por ser este um livro tão pessoal, no entanto, senti falta de uma edição que permitisse que o texto tomasse uma forma mais clara e menos repetitiva. Pois, mesmo considerando que estamos aqui diante de uma história biográfica, a organização do texto poderia ter sido melhor.

Ainda que não seja um livro perfeito, é um livro muito importante. Vivemos tempos complicados, principalmente em termos político-sociais,  e já não é raro ouvirmos vozes defendendo diversas espécies de ditaduras. Conhecemos, no entanto, muito pouco sobre o que realmente acontecia durante a nossa, e este livro é uma excelente forma de entendermos um pouco melhor, mesmo que apenas um pouco, o alcance e consequências deste período. Não é um livro que defende algum tipo de revanchismo, também, mas que defende, sim, a memória, pois só podemos caminhar para frente se lembrarmos com clareza do nosso passado.

 

 

Maíra Protasio

Escritora e mestranda em Filosofia da Arte, vive desde sempre entre livros e cadernos. Vem publicando desde 2014 resenhas de suas leituras em seu blog: doquetenholido.wordpress.com

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