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COISAS PEQUENAS (BEM PEQUENAS MESMO)

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Por Jean Charles Ribeiro Chagas

Estúpido é aquele que pensa em ser grande “com” medidas exatas, mensurando caminhos em que as pernas (e a mente também), quase sempre curtas, não podem chegar. De grandezas e obstáculos todos crescemos e nem sempre percebemos: na altura que insistimos em metrificar; dos bens que adquirimos sem saber usar; das ideias que nos enlaçam e sequer ousamos em pô-las em práticas. Quase tudo com a força voraz da certeza e da grandeza.

Do pé de feijão do João ao Everest, muitas altitudes despencam em nossas afirmações sobre o entendimento e o conhecimento que insistimos em aceitar como altura. Da Fábula à possível (talvez) montanha mais alta do mundo, coisas sustentam-se em toda a nossa percepção do que seria ser “grande” de fato, e pequeno em “gentilezas” afins.

Megalomaníacos por natureza, nós – seres pequenos – idealizamos a ideia difícil de relacionar as coisas pequenas em relação às coisas grandes, como se fossemos capazes de identificar e assumir reforçadamente as coisas pequenas existentes em nós a partir de um ponto de vista qualquer, inclusive, na narrativa do “EU”. Das grandes catástrofes da vida (da vida natural também) muito se dissipa sem sabermos exatamente a medida das coisas, falo das coisas pequenas mesmo, bem pequenas.

Um exemplo de superlativo seria, quem sabe, um animal marinho: a baleia azul. Dizem os cientistas que ela seria o maior mamífero do mundo. Outro exemplo a ser pensado seria o tamanho de uma célula do nosso corpo, a maior delas, o gameta feminino, isso mesmo, o óvulo (e em substantivo masculino), chega a 0,12 mm e pode até ser vista a olho nu. Pequena por natureza, mas grande por “naturalidade”, assim como a naturalidade plural das células que a baleia tem.

2,54 é a medida exata para entendermos o que seja uma polegada, ou seja, 1in=2,54. Medida tão pequena, mas que de forma invisível (e até desconhecida) é mais fácil de contar, pois na Matemática das “razões” tudo é calculável. Mas há coisas que além da Matemática nos sujeitamos a medir sem ou com muitos esforços “sentimentais”, como, por exemplo, medir o quanto se ama, se deseja e se quer alguém ou alguma coisa. É mensurável até o amor de mãe em relação ao amor de pai, medida exata a ser perpetuada sem contestação.

Na medida do tempo, há coisas grandes que se conta em segundos, a morte, por exemplo, é contada logo no primeiro momento em que tudo para e não volta atrás, a não ser quando o possível cadáver (laudo médico indicado e incompreensível de explicar) esteja passando por um processo de EQM. Mas como contar o tempo pra quem morre apenas por experiência? Difícil questão, não é verdade!

Voltando a falar sobre a medida dos sentimentos, o ódio e o amor se digladiam em suas balanças e fitas métricas para, perversamente, lutarem entre seus pesos e medidas. Qual o valor mais exato de tais medidas? Quem sente menos amor, ou quem odeia mais? Não precisamos medir, pesar ou responder, basta apenas sentirmos os nossos egos, sentir as coisas pequenas que nos fazem amar “demais”, as coisas pequenas que nos tornam seres odiosos, ou

tudo ou qualquer coisa que faça sentido para ambos os sentimentos, para mais ou para menos.

Coisas pequenas são medidas com precisão de significados, assim como as coisas grandes, muito embora as proporções sejam injustas: quem trabalha mais pode ganhar pouco demais (coisa pequena); quem trabalha menos pode ganhar muito mais até. É um jogo de frustrações de medidas surreais. Medir as “curtidas”, as moedas, a velocidade para que haja a pontualidade; a medida exata para o ano novo ou a data de aniversário. Como é que tantas coisas são medidas por serem favoráveis a tantas circunstâncias?

Encurtando (não subtraindo), a vida se torna curta demais para quem vive por apenas dois dias no ventre de uma mulher, mas bem prolongado para quem viveu novecentos e sessenta e nove anos. Pois é, assim viveu (somou-se os seus dias) Matusalém (Gênesis 5.27). A História do mundo tem dessas coisas: as larvas, por exemplo, tão pequenas, evoluíram e tornaram-se grandes répteis e as imensas preguiças (des) acompanharam a tal filosofia da vida evolutiva, assim como os “nefilins”. Redução métrica, talvez!

Das coisas pequenas, o que mais incomoda é o medo, esse sim, soma-se a todos os efeitos sentimentais que tal sentimento “tão pequeno” pode alcançar, crescendo quando somado e realizado. Em um confessionário, por exemplo, muitos “terços” servem de perdão para que o grande pecado seja pelo menos pormenorizado. Isso se deve ao desconsolo, ao desconforto e ao desconhecimento daquilo que o nosso próprio entendimento jamais tende a superar: confessar a medida exata dos seus acertos e enganos. Mais uma Matemática da possível exatidão (?).

Por menores que sejam as atribuições de sentido das “coisas pequenas”, nunca entenderemos, de fato, o que seria maior que o entendimento de “menor” do “aquilo” que saibamos comparar. Assim oficializamos a distância entre a terra e a lua e a simples pegada fixa em solo lunar. Condicionamos as medidas de uma beleza padrão “cortando” aqui ou acrescentando ali, como uma espécie de “celebração móvel”, pois o tamanho sempre é importante, inclusive os zeros, um atrás do outro, se possível, separados por algumas vírgulas, se os dígitos que os antecedem forem maior que 5, melhor ainda.

A altura e o peso são quase sempre prestígios, assim como a tonalidade das cores, o grau dos óculos, a medida em “MEGAS”, “GIGAS” e até em números eleitorais. Contam-se pequenas coisas para que não nos esqueçamos, nem do que é bom, nem do que é ruim. Um exemplo: se fabricam e vendem cigarros em grande quantidade, quem festeja, com certeza, não são os milhares de fumantes. Quem fabrica e vende carros (coisa pequena) não se importa com o número exato de vítimas fatais no trânsito também, pois o lucro nem sempre é “vividamente” participativo.

Contam-se nos pratos de quem não tem o que comer grãos de feijão e arroz a serem divididos em sete ou oito bocas. Aí sim… a multiplicação de mais um sentimento, grande e pequeno (quando e onde bem cabe a necessidade): a fé. Para alguns é preciso ter muito mais e até de sobra, pois ela sempre é de menos, para outros, somam-se os muitos zeros a serem “levados” e “elevados” às alturas, bem alto.

É simples somar, multiplicar, dividir e subtrair, mas difícil mesmo é encontrar sentido “absoluto” para aquilo que nos é “relativo”, pois os valores se transformam e transforma a nós ainda mais. Se antes poderíamos alcançar a graça de entendermos o real significado das coisas, hoje precisamos encontrar a certeza de que o “mais” está contido no “menos” e vice-versa.

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