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Ano novo: promessa antiga

cronicas

Por Danillo Camargo

O começo do ano é famoso pelas promessas de mudança de vida – fumar menos, beber menos, economizar/ganhar dinheiro, ser menos trouxa. Creio que os começos no geral dão uma certa determinação robusta. Há aqueles que se mantêm fiéis feito pedra, outros no primeiro sopro das escolinhas de samba já mandam tudo ao inferno. Digo isso por mim, sempre faço bastantes promessas, mas nos primeiros copos de cerveja já retorno ao status quo. O que varia mesmo é o tempo da promessa, geralmente dá para aguentar janeiro, mas fevereiro é difícil não se entregar.

Contudo, há ainda um certo ritual que faço em todos os começos do ano: Jogar a papelada fora. Eu acumulo muita coisa, minhas gavetas estão repletas de apostilas da faculdade, recibos, panfletos de pizzarias, promoções de supermercado e algumas crônicas manuscritas. Eu as guardo pelo ano todo. Essa mania, que acredito não ser algo compulsivo ainda, é hereditária. Minha mãe é mestra na arte de acumular coisas, diferente de mim, ela não as joga fora. Pelo contrário, ela as acomoda em lugares diferentes da casa. Temos um fogão novíssimo em nossa sala de estar, já que ela não quer se desfazer do velho. Se bem que ter um fogão na sala é algo sofisticado.

O problema mesmo é que, às vezes, eu estendo essa mania ao acumular problemas também. Carregar as coisas por um ano é um tanto cavernoso. E já adianto: faz mal para o estômago. Por isso, esse ato de jogar a papelada fora não é só ‘’jogar a papelada fora’’. Eu criei uma metáfora nisso. Jogar tudo fora inclui minhas frustrações e um pouco do meu jeito nocivo. Claro que tem coisa tão enraizada na gente que se jogar fora, num lapso de tempo, reviraremos o lixo procurando.

Interessante é nunca jogar os recibos fora, isso dá uma dor de cabeça desnecessária. Lembro que joguei o recibo do meu computador fora e, uma semana depois, ele pifou. Deu uma trabalheira para conseguir que eles consertassem. Por isso, se possível, guardem seus recibos. A gente já guarda tanta coisa, carta da(o) namorada(o), fotos antigas, amores. Um papel não mata. Foda é arrumar espaço, mas para tudo se dá um, dois, três jeitos.

Por fim, se esse discurso: “ano novo vida nova”, funcionar para você não fique aporrinhando os outros. Já se houver alguma desistência nas metas no correr da caminhada, não se incomode. É tão humano procrastinar que deveria virar uma matéria. Aula de procrastinação, mas teria o risco do professor não ensinar nada, já que ele estaria procrastinando também.

Ano novo serve para isso, trezentos e sessenta e cinco dias para se conhecer, (des)cumprir promessas, terminar às séries atrasadas, receber amor em safra nova, ou valorizar ainda mais o amor envelhecido e jogar a papelada fora. Claro, sempre se lembrando de não jogar fora os recibos. Tenha um bom ano.


Danillo Camargo, escritor de boteco, bacharel em direito, apaixonado por literatura e por café, descobriu o prazer da leitura de maneira tardia, mas foi amor a primeira vista. Acredita que todos são poetas por natureza e que se deve provocar o mundo com a essência das palavras.

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