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GUARDA-ROUPAS

cronicas

Por Jean Charles Ribeiro Chagas

Durante muito tempo acreditei que nós, humildes seres humanos, usávamos apenas dez por cento da nossa capacidade cerebral. Essa informação cresceu comigo e, minha mente, pouco compreensiva sobre tal teoria, de certa forma, nunca aceitou essa “afortunada” questão. Mas o mundo hoje, sem “lugares” exatos para a compreensão e múltiplos espaços para a aceitação, nos facilita novas descobertas para o “afã” de nossa consciência e a “apatia” de tantos consentimentos ocupados pelas nossas mentes.

A ciência descobriu que usamos sim cem por cento de nosso cérebro, tanto que é ele quem comanda as nossas ações até mesmo quando estamos dormindo, inclusive, é ele que “amigavelmente” colabora com os nossos orgãos para que eles continuem trabalhando nesse tão precioso momento, inclusive respirando.

Descobri isso visitando um site na Internet e que, a minha lembrança, audaciosa por natureza, forjou um esquecimento para fim de conclusões. Descobri também que quando sonhamos com alguém que não conhecemos, não implica afirmarmos que este alguém possa ser desconhecido de fato, pois o nosso tão precioso cérebro não obtém informações desconhecidas, ou seja, sonhamos com alguém que não lembramos e não com alguém que nunca vimos ou que nunca tenha existido, pois ele, o cérebro, é tão valioso até para as lembranças que “descuidadamente” se ofuscam ou se deterioram em algum lugar da nossa tão profunda mente.

Pois bem! Não sei explicar de onde partem os esquecimentos, e nem me importo (pelo menos por hoje) em ter que me aprofundar a tal conhecimento a fim de acrescentar neste texto que escrevo. Mas um ponto crucial para o esquecimento (creio eu), talvez sejam os anos que se passam, o limite de “salvação” em que uma lembrança possa ser arquivada em nosso “HD mental”, como se tudo o que acumulássemos em nossas vidas tivesse um espaço apropriado para o aconchego dela: a lembrança.

Lembrança e esquecimento: dois pontos essenciais para entendermos como a nossa mente, de fato, funciona. Bem, supomos então! A mente é um imenso “guardaroupas”, bem antigo, cheio de gavetas e, dentro dele, uma infinidade de pequenas sacolas “alojadas”, desorganizadas e esquecidas com o tempo, cheio de mofo e até pequenas traças habitando dentro delas, são tão terríveis que corroem tanto o coração quanto a alma.

É através de nossas ações que, quase sempre, precisamos fazer uma “higiene mental” em prol de lembranças saudáveis e, às vezes, essa higiene surge também como uma prática mental de descarte daquilo que a lembrança insiste em esquecer. Alguns amores (não bons), por exemplo, cabem em sacolas bem grandes, mas são facilmente bem guardados, outros amores, pequenos por natureza, podem dar um trabalho imenso, ocupam muitos espaços e não nos acrescentam, e assim caem no esquecimento eterno.

De vez em quando, uma arrumação nos obriga a ter que procurar, dentro do guarda-roupas, algo ou alguma coisa por necessidade, são nessas “arrumações” (que também não entendo a relação procurar/arrumar) que os inesperados emergem. É exatamente aí que as lembranças aparecem: quando por qualquer necessidade obrigamos a nossa mente ao reconhecimento e a curiosidade de tentar resgatar a tal lembrança.

Abrindo sacos, olhando, identificando e até cheirando, pois cheiro também tem memória, aqui ou acolá conseguimos identificar muito em nossas lembranças através dele. O esquecimento, inseparável da lembrança, se alimenta dela e isso faz dos dois, cúmplices de nossas emoções: da inexorável morte ao afastamento da vida; do irreparável “apagão” ao inseparável sonho que predomina enquanto dormimos; da data de nascimento ao que comprar na feira no domingo; daquilo que entendemos como verdade ao que assumimos como desconfiança; do riso ingênuo de quem viu aquela foto na gaveta ao choro de quem vê a “reprise” de ver alguém “de novo”… E “mais uma vez”… Quase sempre ou de vez em quando… Quando.

Entre os laços da memória e do esquecimento, muito temos que aprender, deles surge a maturidade de reconhecermos o inconfundível cheiro de café ou chocolate, embora não estejam guardados no guarda-roupas, mas aprisionados na lembrança que se apodera daquilo que somos ou daquilo que o esquecimento forja em suas gavetas e sacolas , sem perceber somamos com a existência das coisas alheias (com esquecimento e com lembranças, claro)

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