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As Vinhas da Ira – John Steinbeck

Este é um livro que já estava parado na minha estante há anos e já estava começando a achar que ele ia entrar na seção “Tenho mas nunca vou ler”, mas ainda bem que finalmente tomei coragem para encarar suas 585 páginas (em edição pocket espremidinha)! É realmente um clássico da literatura sem tirar nem por!

Steinbeck constrói uma narrativa que acompanha uma família do interior dos Estados Unidos, os Joad, em meio aos anos 30, isto é, em meio às consequências da Grande Depressão de 29. Temos que ter em mente, desse modo, que este é um livro sobre o drama desta família individual, claro, mas que funciona como vitrine para discussões politico-filosóficas bem mais densas e abrangentes.

Com os trabalhadores rurais perdendo seus empregos e até mesmo suas propriedades em consequência da Grande Depressão, a família Joan, como tantas outras, vê-se forçada a deixar tudo para trás em busca da esperança de encontrar trabalho e melhores condições de vida em outro lugar, no caso, nas plantações da Califórnia. Uma coisa que chamou muito a minha atenção na leitura, e que eu acho que é um aspecto que pode ajudar a nós, brasileiros, a compreender melhor o processo social que Steinbeck descreve em sua obra, foram as semelhanças do processo de migração dos “Okies” para a prometida Califórnia nos anos 30 e a migração que vivemos do Nordeste rumo ao Sudeste do Brasil que, talvez não por acaso (embora por motivos diferentes) cresceu justamente a partir dos anos 30. E, como vimos acontecer também aqui no Brasil, o que os Joad vão encontrar no caminho e na própria Califórnia não se assemelha nada às suas expectativas. Ainda existem aqueles que, justamente por não acreditarem que na Califórnia as coisas serão melhores, preferem ficar na miséria conhecida:

Mas é melhor passar fome em casa, perto da gente conhecida. Nada de morrer de fome no meio duma gente que nos odeia.

Mas estes são poucos. O que vemos no romance histórico de Steinbeck é um grande movimento migratório, onde famílias cheia de esperanças se vêem em situações sub humanas, em regimes de trabalho próximos da escravidão e em situações abusivas, tanto física quando moralmente. Tanto que a conclusão final de uma das personagens é a seguinte:

É a miséria que provoca todos os males.

Este não é, desse modo, uma história com final feliz, mas, sim, com um final honesto, que combina com o percurso que nos levou até ele. O livro todo nos faz pensar sobre esta situação que está diante de nossos olhos sem deixar de nos fazer pensar também sobre os nossos valores, nossas ações e o quanto colaboramos, mesmo que indiretamente, para que determinadas relações sociais continuem existindo.

Será que nossas ações seriam distintas ou semelhantes às ações dos Joads? Será que nos conformaríamos ou continuaremos tentando? Como podemos compreender de fato estas personagens sem nunca ter estado em sua pele? A sensível narrativa de Steinbeck sem dúvida chega perto de nos dar acesso a essa compreensão, mas é uma leitura que exige bastante empatia para alcançarmos seu real poder.

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