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Frankenstein – Mary Shelley

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Frankenstein é um dos clássicos mais importantes para toda a literatura de ficção científica e de terror que veio posteriormente, e sem dúvida um dos mais reinventados pela nossa contemporaneidade. De desenhos animados para crianças aos mais diversos estilos de filmes de terror, não quem não tenha, mesmo que vaga, alguma referência ao personagem Frankenstein ou, ainda, à busca frustrada por criar vida por meio da ciência.

No entanto, quando chegamos à obra original, percebemos rapidamente que estas referências tem pouca ou nenhuma relação com o texto de Shelley. Para mim esta foi uma releitura (em uma versão bem mais completa) de uma das minhas primeiras leituras em inglês, ainda na época do colégio. Então algumas dessas diferenças, como o fato de que o “Monstro” nunca é nomeado e Frankenstein é, na verdade, o nome do médico, do seu criador, e não da criatura, não foi surpresa para mim, mas acredito que seja para quem nunca teve contato com a obra.

O interessante é que, mesmo lembrando de alguns pontos centrais, existem muitos elementos que já haviam ficado perdidos nestes mais de 10 anos entre as duas leituras, então foi como descobrir a escrita de Shelley e a história de Frankenstein e de sua criatura toda de novo. Eu me surpreendi, refleti, me encantei e me frustei com estes personagens que são humanos, falhos e ao mesmo tempo completamente impressionantes.

Um dos lados mais interessantes da narrativa de Shelley é o modo como ela é capaz de nos fazer compreender os dois lados da história. Pois, no fundo, o que temos aqui são dois homens assustados: primeiramente, Frankenstein que, assustado e arrependido diante do resultado de sua obra, tenta renegar sua criatura, pois é só quando obtém sucesso em sua empreitada que consegue ver o quanto estava equivocado em achar que brincar de Deus seria simples e objetivo.

Por outro lado, vemos a criatura que, abandonada pelo seu criador e sem explicação alguma de como ou porque veio a existir, se vê sozinha e forçada a descobrir por si mesma quem ela é e qual é o seu lugar entre os homens. É impossível não se comover com sua condição, especialmente diante de seu esforço por aprender e encontrar um lugar no nosso mundo.

Somos forçados, no entanto, a encarar os fatos: será que, se postos frente a frente com uma criatura tal qual descrita por Mary Shelley seríamos diferentes? A trataríamos com respeito e compaixão? Ou somos todos, enquanto humanos, incapazes de lidar de um modo positivo com um ser tão radicalmente diferente de nós, mesmo que sendo, ao que tudo indica, formado de partes humanas?

Partindo de questões como essas, a leitura de Frankenstein acaba sendo um exercício radical de empatia. Até que ponto conseguimos ser empáticos com Frankenstein, que é o responsável pelo nascimento desta criatura? Até que ponto conseguimos ser empáticos com uma criatura que, perdida, desenvolve um comportamento cruel e violento? Até que ponto podemos, através da ciência, brincar de Deus e até que ponto somos os responsáveis pelas consequências de nossos experimentos?

Frankenstein é uma leitura forte, até um pouco violenta em alguns momentos, mas que tem seu grande trunfo nas questões que são colocadas, principalmente se pensarmos que foi publicada originalmente em 1818, quando sua autora tinha apenas 21 anos, e continua sendo tão pertinente. Já não tentamos reanimar corpos à maneira de Frankenstein, mas continuamos tentando driblar nossa mortalidade através da ciência. Será que um dia chegaremos lá? E, mais importante, será que nos arrependeremos, como Frankenstein se arrependeu?

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