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[RESENHA] A (R)evolução das Mulheres – Mindy McGinnis

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É assim que eu mato uma pessoa.

Descubro seus hábitos, decoro seus horários. Não é difícil. A vida dele consiste em paradas rápidas nas lojas de tudo por um dólar, onde compra o mínimo necessário para manter seu ciclo capenga em movimento. O boné enfiado na testa, cobrindo os olhos para não ser reconhecido.

Mas ele é. É uma cidade pequena.

É assim que a autora Mindy McGinnis nos apresenta ao mundo de A (R)Evolução das Mulheres e à sua protagonista, Alex Craft, uma jovem de 17 anos que, depois de perder a irmã em um assassinato brutal (somente partes corpo dela foram encontrados), se encontra no papel da vingadora. Desviando de classificações fáceis como psicopata ou traumatizada, McGinnis cria uma personagem complexa, que nos atrai e repele na mesma medida.

Pois Alex Craft não é apenas a personificação da vingança. Ela também é uma aluna do Ensino Médio que, apesar de ter se mantido distante de todos desde a morte da irmã, vai acabar desenvolvendo uma inesperada relação afetiva com FP e Jack. E é graças a isso que vamos tendo a oportunidade de conhecer outros lados de Alex, pela perspectiva destes dois outros personagens, lados que talvez ela não pudesse nos contar ou talvez lados que ela nem mesmo sabe que tem.

Mais do que discutir as questões que envolvem o ato de fazer justiça com as próprias mãos em uma situação em que fica claro que a justiça em si não é capaz de fazer o seu trabalho, este é um romance jovem adulto extremamente feminista sem que o termo necessite ser utilizado uma única vez. Pois ao longo do romance nós seremos expostos a situações que vão deixando claro o alcance da cultura de estupro, que vai da menina bonita que é tratada como objeto sexual por todos até a menina que bebe um pouco demais e, completamente inconsciente, estava “pedindo”.

No anonimato da escuridão, o ar parecia pesado de pensamentos, a loira sentada do meu lado se esforçando para respirar normalmente quando um menino sugeriu que ela seria a estuprada entre as cinco de nós que foram apontadas.

Tudo isso é apenas potencializado pelo fato de que, ao se passar em uma cidade pequena, vemos uma história em que todos se conhecem muito bem, inclusive agressores e vítimas. O cara que vai te estuprar quando você estiver caindo de bêbada é o melhor amigo do seu irmão. O cara que grita que você merecia ser estuprada é seu amigo desde o Jardim de Infância. O cara pedófilo pego com pornografia infantil é aquele tio da sua amiga com quem você já passou horas sozinha ao longo da sua infância e, “por sorte”, não aconteceu nada com você. Temos, desse modo, uma situação impossível para a polícia: afinal, quem vai querer denunciar o vizinho, o filho da melhor amiga, o seu melhor amigo que estava apenas querendo se divertir um pouco?

A leitura de A (R)Evolução das Mulheres é, desse modo, muito fácil e muito difícil. Muito fácil porque os personagens nos envolvem e a série de acontecimentos encadeados aqui fazem com que não queiramos parar de ler até chegar ao fim, além do estilo de escrita da Mindy McGinnis ser bastante fluido. No entanto, é uma leitura muito difícil por tratar de temas tão fortes (e de não ter medo de descrever certas cenas em detalhes). Portanto, se você se sente preparado para encarar um YA com violência, abuso sexual e muita verdade, leia. Garanto que não vai se arrepender.

A violência da vida real não é aquela coisa coreografada dos filmes. Não é sensual. É algo desajeitado e confuso.

Maíra Protasio

Escritora e mestranda em Filosofia da Arte, vive desde sempre entre livros e cadernos. Vem publicando desde 2014 resenhas de suas leituras em seu blog: doquetenholido.wordpress.com

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