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O quarto de Jacob – Virginia Woolf

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Considerado, tanto pela crítica quanto pela própria autora, como o primeiro livro “em liberdade” de Virignia Woolf, O quarto de Jacob é uma pequena preciosidade. Delicado, envolvente e já bem moderno, comparado ao tipo de literatura que era produzida na época, O quarto de Jacob é absolutamente encantador.

Aqui vemos uma Woolf que já começa a explorar os novos caminhos que a levarão a algumas de suas obras mais icônicas, como Mrs. Dalloway. Vamos aos poucos conhecendo e desvendando as minúcias do personagem Jacob, que me conquistou desde as primeiras páginas. Ele é estranho e de uma sensibilidade impressionante, assim como de um impulso reflexivo marcante.

Um dos pontos mais interessantes do livro é o modo como Woolf faz uso da nossa ideia idílica da Grécia Antiga para dar voz aos anseios tipicamente modernos que passam  a surgir na mente de Jacob.

Essa melancolia, essa submissão às águas escuras que nos cercam, é uma invenção moderna. Talvez, como diria Cruttendon, não acreditemos o bastante.

 

 

Maíra Protasio

Escritora e mestranda em Filosofia da Arte, vive desde sempre entre livros e cadernos. Vem publicando desde 2014 resenhas de suas leituras em seu blog: doquetenholido.wordpress.com

Matéria Escura – Blake Crouch

Um dos lançamentos mais incríveis que a Intrínseca trouxe até agora neste ano, e de uma beleza editorial impressionante, Matéria Escura foi uma leitura de impacto tremendo para mim. Eu não sabia muita coisa sobre a história antes de começar a ler, sabia apenas que girava em torno da teoria dos multiversos, e mesmo disso não sabia muita coisa.

A verdade é que minha experiência com a teoria do Multiverso se baseia, em grande medida, na série de TV The Flash, ou seja, não tem uma base 100% cientifica. Por isso, talvez, a forma bastante técnica e, ainda assim, compreensível para nós, pessoas comuns, que não estamos acostumados a lidar com problemas de física no nosso cotidiano. Acho, inclusive, que eu nunca achei a Física, enquanto disciplina, tão tangível e interessante quanto ao longo das frenéticas 48h que levei para ler este livro.

Nosso protagonista é Jason Dessen, um homem que aparentemente é feliz, embora, como todos nós, fez escolhas que, em um momento ou outro, questiona se foram as escolhas corretas ou não. Ainda sim, refazê-las não parece ser uma vontade sua. Ele está perfeitamente satisfeito com sua vida. Mas, à sua revelia, ele acaba sendo enviado a um outro mundo paralelo, onde as suas escolhas teriam sido outras e, portanto, a vida que construí para si completamente diversa.

Ao longo de Matéria Escura vamos acompanhando, deste modo, três momentos da história de Jason. Primeiramente, ele busca compreender o que aconteceu com ele, pois ele não sabe, de início, nem quem nem como nem porque tudo isso está acontecendo com ele. Em segundo lugar, acompanhamos a luta para Jason voltar para casa. Finalmente, acompanhamos as consequências deste processo de volta para casa, consequências estas bastante surpreendentes.

Estas consequências acabam sendo, na verdade, o que leva o livro a um nível existencialista tão impressionante. Pois, sem dar nenhum SPOILER, a questão deixa de ser apenas em que medida podemos ou não refazer nossas grandes escolhas, dedicar-se a família ou ao trabalho, por exemplo, mas em que medida cada pequena escolha, às quais nem damos muita importância, é responsável por formar quem somos, nossa essência.

Somos apenas a soma de nossas escolhas? Nosso passado sempre é o que determina nosso futuro? Podemos mesmo falar de essência ou, como pretende a corrente existencialista, tudo o que somos é o que fazemos? Matéria Escura apresenta alguns caminhos para respondermos estas perguntas, o mais interessante deles presente em uma conclusão a que Jason chega ao final de sua jornada:

Não posso deixar de pensar que somos mais do que a soma total de nossas escolhas e que todos os caminhos que poderíamos ter trilhado influem de algum modo na matemática da nossa identidade.

Maíra Protasio

Escritora e mestranda em Filosofia da Arte, vive desde sempre entre livros e cadernos. Vem publicando desde 2014 resenhas de suas leituras em seu blog: doquetenholido.wordpress.com

Frankenstein – Mary Shelley

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Frankenstein é um dos clássicos mais importantes para toda a literatura de ficção científica e de terror que veio posteriormente, e sem dúvida um dos mais reinventados pela nossa contemporaneidade. De desenhos animados para crianças aos mais diversos estilos de filmes de terror, não quem não tenha, mesmo que vaga, alguma referência ao personagem Frankenstein ou, ainda, à busca frustrada por criar vida por meio da ciência.

No entanto, quando chegamos à obra original, percebemos rapidamente que estas referências tem pouca ou nenhuma relação com o texto de Shelley. Para mim esta foi uma releitura (em uma versão bem mais completa) de uma das minhas primeiras leituras em inglês, ainda na época do colégio. Então algumas dessas diferenças, como o fato de que o “Monstro” nunca é nomeado e Frankenstein é, na verdade, o nome do médico, do seu criador, e não da criatura, não foi surpresa para mim, mas acredito que seja para quem nunca teve contato com a obra.

O interessante é que, mesmo lembrando de alguns pontos centrais, existem muitos elementos que já haviam ficado perdidos nestes mais de 10 anos entre as duas leituras, então foi como descobrir a escrita de Shelley e a história de Frankenstein e de sua criatura toda de novo. Eu me surpreendi, refleti, me encantei e me frustei com estes personagens que são humanos, falhos e ao mesmo tempo completamente impressionantes.

Um dos lados mais interessantes da narrativa de Shelley é o modo como ela é capaz de nos fazer compreender os dois lados da história. Pois, no fundo, o que temos aqui são dois homens assustados: primeiramente, Frankenstein que, assustado e arrependido diante do resultado de sua obra, tenta renegar sua criatura, pois é só quando obtém sucesso em sua empreitada que consegue ver o quanto estava equivocado em achar que brincar de Deus seria simples e objetivo.

Por outro lado, vemos a criatura que, abandonada pelo seu criador e sem explicação alguma de como ou porque veio a existir, se vê sozinha e forçada a descobrir por si mesma quem ela é e qual é o seu lugar entre os homens. É impossível não se comover com sua condição, especialmente diante de seu esforço por aprender e encontrar um lugar no nosso mundo.

Somos forçados, no entanto, a encarar os fatos: será que, se postos frente a frente com uma criatura tal qual descrita por Mary Shelley seríamos diferentes? A trataríamos com respeito e compaixão? Ou somos todos, enquanto humanos, incapazes de lidar de um modo positivo com um ser tão radicalmente diferente de nós, mesmo que sendo, ao que tudo indica, formado de partes humanas?

Partindo de questões como essas, a leitura de Frankenstein acaba sendo um exercício radical de empatia. Até que ponto conseguimos ser empáticos com Frankenstein, que é o responsável pelo nascimento desta criatura? Até que ponto conseguimos ser empáticos com uma criatura que, perdida, desenvolve um comportamento cruel e violento? Até que ponto podemos, através da ciência, brincar de Deus e até que ponto somos os responsáveis pelas consequências de nossos experimentos?

Frankenstein é uma leitura forte, até um pouco violenta em alguns momentos, mas que tem seu grande trunfo nas questões que são colocadas, principalmente se pensarmos que foi publicada originalmente em 1818, quando sua autora tinha apenas 21 anos, e continua sendo tão pertinente. Já não tentamos reanimar corpos à maneira de Frankenstein, mas continuamos tentando driblar nossa mortalidade através da ciência. Será que um dia chegaremos lá? E, mais importante, será que nos arrependeremos, como Frankenstein se arrependeu?

Amor Plus Size – Larissa Siriani

Em Amor Plus Size, conhecemos Maitê Passos, uma garota de 17 anos linda, mas incapaz de se ver e ser vista para além de seus mais de cem quilos. Bullying, distúrbios alimentares, moda plus size, aceitação, descobertas, primeiro amor e respeito são apenas alguns dos temas que Larissa Siriani aborda nesta obra.

Aqui nós temos uma história que começa parecendo ser mais um romance adolescente da menina apaixonada pelo cara bonito porém misterioso, mas que obviamente se interessa mais pela menina popular magricela que por ela, mas que aos poucos se revela algo totalmente diferente. Siriani nos envolve de uma forma que nem nos damos conta do momento em que a história contada por Maitê torna-se bem mais séria, importante e abrangente.

Um escolha da autora que mostra-se importante para a experiência da leitura é que ela escreve um prólogo, no qual Maitê já é uma conhecida modelo Plus Size e, em meio a uma entrevista, começa a contar para a revista, e para nós, como foi que ela chegou até ali. Assim, a narrativa não gira tanto em torno do que vai acontecer, embora ainda role uma certa curiosidade a respeito da parte romântica da vida de Maitê, mas, sim, em torno de como vai acontecer.

É muito bonita, embora em alguns momentos pareça um pouco fácil demais, o modo como vemos Maitê crescer, transformando-se de uma adolescente bastante insegura em uma mulher forte, confiante. Este processo, assim como os momentos em que vamos vendo que ninguém é perfeito e cada personagem tem suas pequenas (e grandes) batalhas internas, é muito rico para o leitor, principalmente para aqueles que já passaram por questões parecidas, ou até para quem está vivendo um momento semelhante neste exato momento.

Acho apenas que em alguns momentos a leveza da narrativa teen fazem com que alguns pontos abordados por Siriani não recebam a atenção e densidade devida, mas, ainda assim, é uma leitura que vale muito a pena. E ela conclui a história de Maitê com um tom muito interessante, nem totalmente fofo e nem totalmente trágico, criando um final que dá vontade de chorar, sorrir e dar um abraço forte em cada um destes personagens.

Misery – Stephen King

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O famoso escritor de best-sellers Paul Sheldon sofre um grave acidente em meio a uma forte tempestade de inverno. Praticamente inconsciente e em uma estrada com pouquíssimo movimento, o fato de ele ser encontrado e resgatado por Annie Wilkes, sua maior fã que, por acaso, passava pelo local pouco depois do acidente parece ser uma sorte. Mas desde quando histórias de “sorte” interessam Stephen King?

Conforme vamos descobrindo aos poucos, Annie Wilkes é daquelas fãs um pouco desequilibradas e o que começa como um resgate de uma situação de vida ou morte torna-se rapidamente um sequestro, com toques de tortura e terror psicológico. A forma como a relação entre os dois progride e, principalmente, o modo como vamos, junto com Paul, descobrindo as nuances da personalidade de Annie, assim como diversos acontecimentos de seu passado que a levaram até ali.

O que é mais interessante é que Stephen King constrói um fortíssimo terror psicológico a partir de uma premissa que vai agradar qualquer grande fã de literatura e, principalmente, aqueles de nós que já pensamos em dar um jeito de obrigar nossa escritora favorita a reverter AQUELA morte (Cof Cof J. K. Rowling): o que você faria se tivesse seu escritor favorito em suas mãos? Falar muito mais que isso corre o risco de estragar a leitura, mas se você já pensou em algo neste sentido, com certeza vai amar odiar Annie e Paul.

Em termos de construção narrativa, acho que Misery sofre de um problema de ritmo, pois sua primeira metade começa a ficar repetitivo e cansativo até que, lá pela metade, a coisa volta a engrenar e aí surge um crescente intenso que leva o leitor até a última página em uma respiração só. É muito enriquecedor, entretanto, seja como leitora, seja como escritora, ver como King mostra todos os pequenos modos em que cada um dos dois explora, os seus limites, isto é, até que ponto eles tem poder, ou são submissos, um ao outro.

Deuses Americanos – Neil Gaiman

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Deuses Americanos é mesmo daqueles livros que deixam sua marca. Gostando ou não dos personagens, que estão longe de ser perfeitos, é impossível passar incólume a esta leitura. É um livro intenso, onde tanto ação, aventura e mistério quanto discursos mítico-filosóficos encontram seu lugar, o que dá um poder impressionante à narrativa de Gaiman.

A trama gira em torno do encontro entre Shadow e Wednesday, o qual, sob circunstâncias muito misteriosas, quer fazer do primeiro seu guarda-costas / faz-tudo e não está muito disposto a aceitar não como resposta. Assim, Shadow se vê em uma jornada pelas estradas dos Estados Unidos durante o qual encontrará mais perguntas que respostas.

Até aí, nada de tão surpreendente assim. Há, porém, um pequeno twist: Wednesday, assim como a maior parte das personagens que Shadow conhecerá em sua jornada, é um deus. Sim, um deus. Um dos deuses americanos. E quem são esses deuses? São deuses da mitologia nórdica, egípcia, entre outras, misturados e repostos no contexto americano de um maneira brilhante por Gaiman.

É muito interessante o modo como o autor faz uso das mitologias mais diversas para construir uma história complexa que busca dar conta, em algum nível, da construção da américa enquanto cultura e de que modo uma cultura dos imigrantes torna-se uma cultura da mídia, da tecnologia e do dinheiro. Deuses Americanos acaba, assim, conseguindo fazer com que seu leitor se divirta (muito!) e, ao mesmo tempo, reflita muito sobre o que faz cada cultura, seja a nossa ou seja a americana, ser o que é e qual é o impacto de esquecermos de nossos deuses e começarmos aos poucos a substitui-los por novos.

Mas é importante saber que o livro tem camadas e, mesmo que muitas delas fiquem mais claras com as informações extras que essa edição maravilhosa traz, existem muitos aspectos que, para pessoas (como eu) mais acostumadas a ver referências apenas à mitologia cristã, podem passar em branco. Por isso, recomendo paciência e curiosidade nesta leitura, pois ela certamente cresce se o leitor puder fazer uma pesquisa para compreender melhor quem são aqueles deuses e qual é a sua origem mitológica.

Ainda está na dúvida se vale a pena? Dá uma olhadinha (mas cuidado que tem um pouquinho de SPOILER) no trailer da série inspirada neste livro com estreia marcada para o dia 30 de abril!

Maíra Protasio

Escritora e mestranda em Filosofia da Arte, vive desde sempre entre livros e cadernos. Vem publicando desde 2014 resenhas de suas leituras em seu blog: doquetenholido.wordpress.com

As Vinhas da Ira – John Steinbeck

Este é um livro que já estava parado na minha estante há anos e já estava começando a achar que ele ia entrar na seção “Tenho mas nunca vou ler”, mas ainda bem que finalmente tomei coragem para encarar suas 585 páginas (em edição pocket espremidinha)! É realmente um clássico da literatura sem tirar nem por!

Steinbeck constrói uma narrativa que acompanha uma família do interior dos Estados Unidos, os Joad, em meio aos anos 30, isto é, em meio às consequências da Grande Depressão de 29. Temos que ter em mente, desse modo, que este é um livro sobre o drama desta família individual, claro, mas que funciona como vitrine para discussões politico-filosóficas bem mais densas e abrangentes.

Com os trabalhadores rurais perdendo seus empregos e até mesmo suas propriedades em consequência da Grande Depressão, a família Joan, como tantas outras, vê-se forçada a deixar tudo para trás em busca da esperança de encontrar trabalho e melhores condições de vida em outro lugar, no caso, nas plantações da Califórnia. Uma coisa que chamou muito a minha atenção na leitura, e que eu acho que é um aspecto que pode ajudar a nós, brasileiros, a compreender melhor o processo social que Steinbeck descreve em sua obra, foram as semelhanças do processo de migração dos “Okies” para a prometida Califórnia nos anos 30 e a migração que vivemos do Nordeste rumo ao Sudeste do Brasil que, talvez não por acaso (embora por motivos diferentes) cresceu justamente a partir dos anos 30. E, como vimos acontecer também aqui no Brasil, o que os Joad vão encontrar no caminho e na própria Califórnia não se assemelha nada às suas expectativas. Ainda existem aqueles que, justamente por não acreditarem que na Califórnia as coisas serão melhores, preferem ficar na miséria conhecida:

Mas é melhor passar fome em casa, perto da gente conhecida. Nada de morrer de fome no meio duma gente que nos odeia.

Mas estes são poucos. O que vemos no romance histórico de Steinbeck é um grande movimento migratório, onde famílias cheia de esperanças se vêem em situações sub humanas, em regimes de trabalho próximos da escravidão e em situações abusivas, tanto física quando moralmente. Tanto que a conclusão final de uma das personagens é a seguinte:

É a miséria que provoca todos os males.

Este não é, desse modo, uma história com final feliz, mas, sim, com um final honesto, que combina com o percurso que nos levou até ele. O livro todo nos faz pensar sobre esta situação que está diante de nossos olhos sem deixar de nos fazer pensar também sobre os nossos valores, nossas ações e o quanto colaboramos, mesmo que indiretamente, para que determinadas relações sociais continuem existindo.

Será que nossas ações seriam distintas ou semelhantes às ações dos Joads? Será que nos conformaríamos ou continuaremos tentando? Como podemos compreender de fato estas personagens sem nunca ter estado em sua pele? A sensível narrativa de Steinbeck sem dúvida chega perto de nos dar acesso a essa compreensão, mas é uma leitura que exige bastante empatia para alcançarmos seu real poder.

Viva o Povo Brasileiro – João Ubaldo Ribeiro 

Em Viva o Povo Brasileiro, João Ubaldo Ribeiro busca responder a uma questão ainda presente hoje (e que não parece que será resolvida tão cedo): no que consiste o “Povo Brasileiro”? Parece simples, a princípio, responder que o povo brasileiro seria composto de nós, brasileiros, isto é, todos que tem nacionalidade brasileira. Mas a realidade, infelizmente, não é essa.

Com essa discussão por trás, João Ubaldo Ribeiro faz uma espécie de reconto da História do Brasil, concentrando-se em especial em eventos que teriam ocorrido (a linha entre ficção e nao-ficção frequentemente torna-se tênue aqui) nos séculos XIX e XX em Salvador e na Ilha de Itaparica. Com isso, ele busca dar voz à parcela frequentemente esquecida do nosso povo: os negros, as mulheres, os pobres, entre outros.

 Em meio a um enredo em que o forte e denso conteúdo sobressai, é importante notar que nem por isso o autor deixa de fazer uso do seu humor e talento literário. São justamente esses traços, na verdade, que dão ainda mais poder e voz às questões politicossociais que João Ubaldo Ribeiro busca trazer à tona em sua obra.

É um livro forte, onde não faltam cenas de preconceito, abuso de poder e violência. Justamente por isso, é um livro intenso, em que constantemente somos forçados, enquanto brasileiros, a reavaliar nossas noções e ações. Viva o Povo Brasileiro é um livro extremamente necessário, pois coloca em questão nossa formação enquanto povo enquanto nos confronta com tudo que há de mais absurdo na nossa História e o quanto isso faz parte do nosso presente.

É daquelas coisas que deveria ser ensinado na escola, pois todo brasileiro, uma vez na vida pelo menos, poderia se beneficiar do tipo de reflexão que ela desperta. Não é das leituras mais fáceis, mas é sem dúvida transformadora. E tem coisa melhor que sair de uma leitura transformada?

Maíra Protasio

Escritora e mestranda em Filosofia da Arte, vive desde sempre entre livros e cadernos. Vem publicando desde 2014 resenhas de suas leituras em seu blog: doquetenholido.wordpress.com

O tribunal de quinta-feira – Michel Laub

Um dos maiores expoentes da literatura nacional contemporânea, Michel Laub vem recebendo diversos elogios a respeito de O tribunal de quinta-feira e, de fato, a sinopse chama a atenção. Com um tema muito interessante e poderoso, o da AIDS, aliado ao nosso hábito contemporâneo de criarmos, na internet, verdadeiros tribunais sociais, Laub parte de uma premissa poderosa.

Uma ideia interessante, com um humor ácido bem forte, que não vai agradar a qualquer um, e nem esta parece ser a intenção do autor, mas que funciona muito bem dentro de sua proposta, pelo menos no início. O problema é que o estilo da narrativa, escrita em primeira pessoa por um dos “réus em julgamento”, começa a ficar repetitiva e a se perder um pouco.

Em determinado momento, a trama torna-se tão repetitiva a ponto de você se peguntar em alguns momentos se já não leu aquele capítulo, pois ele repete não só as histórias como quase o faz palavra por palavra. A leitura, que era para ser rápida, torna-se, desse modo, arrastada.

Ainda assim, Laub consegue ter certos insights brilhantes e que quase conseguem superar os pontos mais fracos de sua narrativa. Em dado momento, ele coloca em questão, por exemplo, nossas boas intenções versus as consequências que elas podem tomar:

Todo fascista julga estar fazendo o bem. Todo linchador age em nome de princípios nobres. Toda vingança pessoal pode ser elevada a causa política

 

Maíra Protasio

Escritora e mestranda em Filosofia da Arte, vive desde sempre entre livros e cadernos. Vem publicando desde 2014 resenhas de suas leituras em seu blog: doquetenholido.wordpress.com

Suzy e as águas-vivas – Ali Benjamin

Suzy e as águas-vivas é uma história infanto-juvenil tocante, rica e, acima de tudo, apaixonante que gira em torno do modo como Suzy, uma menina de doze anos, irá lidar com a notícia da morte de Franny, a melhor amiga de infância com a qual ela se encontrava rompida. É uma história sobre perda e aceitação, claro, mas também sobre muitas outras coisas e que, principalmente, cumpre belamente o que promete desde suas primeiras páginas.

Um dos aspectos mais interessantes do modo como Benjamin constrói sua narrativa é a forma que ela utiliza o método científico, conforme ensinado a Suzy por sua professora de Ciências, também como método para lidar com o trauma da perda e com os sentimentos conflitantes que Suzy tinha pela ex-melhor amiga e que, até então, estavam parcialmente adormecidos.

Ali Benjamin consegue, com muita delicadeza e respeito, tratar de um assunto complicado e, para muitos, pesado, de uma maneira muito leve e positiva, nos trazendo uma mensagem final de uma espécie de esperança realista. Suzy e as águas-vivas encontra certa harmonia, assim, entre o fatalismo e o otimismo, entre a dor e a alegria, entre a tristeza mais profunda e a beleza mais simples.

Maíra Protasio

Escritora e mestranda em Filosofia da Arte, vive desde sempre entre livros e cadernos. Vem publicando desde 2014 resenhas de suas leituras em seu blog: doquetenholido.wordpress.com

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