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O oceano no fim do caminho – Neil Gaiman

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Entrar no mundo que Neil Gaiman constrói em “O oceano no fim do caminho” é como entrar em um sonho lúcido, onde o limite entre ficção e realidade, tão claro em outros autores, se perde. Em meio a lembranças de infância que pareciam estar perdidas, até que nosso protagonista se vê diante do terreno onde um dia foi sua casa, vamos participando desta espécie de exercício de memória durante o qual é impossível determinar onde começa a imaginação infantil e onde a mesma termina.

Tive a impressão que nem o próprio personagem sabe até que ponto o que se recorda é real ou criação, mas isso não parece ter importância e, portanto, temos que superar nosso impulso inicial e aceitar o mundo onírico de Gaiman que quisermos aproveitar este livro em todo o seu esplendor. Pois temos diante de nós, sim, o inacreditável, mas também o belo no horror, a simplicidade do que parece absurdo e tudo mais que faz parte da esfera do sonho.

Existem monstros de todos os formatos e tamanhos. Alguns deles são coisas de que as pessoas tem medo. Alguns são coisas que se parecem com outras das quais as pessoas costumavam ter medo muito tempo atrás. Algumas vezes os monstros são coisas das quais as pessoas deveriam ter medo, mas não tem.

Esta é uma narrativa bem mais curta que o outro livro do autor que eu já havia lido, “Deuses Americanos”, e isto tem um ponto positivo e um negativo. O ponto positivo é que aqui o autor consegue construir uma narrativa mais fluida e mal sentimos o tempo passar. O problema, no entanto, é que acaba sendo uma história curta DEMAIS! Senti muita falta de uma continuidade, embora isso possa ser, claro, um sinal de que o livro é muito bom, e não um defeito.

Maíra Protasio

Escritora e mestranda em Filosofia da Arte, vive desde sempre entre livros e cadernos. Vem publicando desde 2014 resenhas de suas leituras em seu blog: doquetenholido.wordpress.com

 

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[RESENHA] A (R)evolução das Mulheres – Mindy McGinnis

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É assim que eu mato uma pessoa.

Descubro seus hábitos, decoro seus horários. Não é difícil. A vida dele consiste em paradas rápidas nas lojas de tudo por um dólar, onde compra o mínimo necessário para manter seu ciclo capenga em movimento. O boné enfiado na testa, cobrindo os olhos para não ser reconhecido.

Mas ele é. É uma cidade pequena.

É assim que a autora Mindy McGinnis nos apresenta ao mundo de A (R)Evolução das Mulheres e à sua protagonista, Alex Craft, uma jovem de 17 anos que, depois de perder a irmã em um assassinato brutal (somente partes corpo dela foram encontrados), se encontra no papel da vingadora. Desviando de classificações fáceis como psicopata ou traumatizada, McGinnis cria uma personagem complexa, que nos atrai e repele na mesma medida.

Pois Alex Craft não é apenas a personificação da vingança. Ela também é uma aluna do Ensino Médio que, apesar de ter se mantido distante de todos desde a morte da irmã, vai acabar desenvolvendo uma inesperada relação afetiva com FP e Jack. E é graças a isso que vamos tendo a oportunidade de conhecer outros lados de Alex, pela perspectiva destes dois outros personagens, lados que talvez ela não pudesse nos contar ou talvez lados que ela nem mesmo sabe que tem.

Mais do que discutir as questões que envolvem o ato de fazer justiça com as próprias mãos em uma situação em que fica claro que a justiça em si não é capaz de fazer o seu trabalho, este é um romance jovem adulto extremamente feminista sem que o termo necessite ser utilizado uma única vez. Pois ao longo do romance nós seremos expostos a situações que vão deixando claro o alcance da cultura de estupro, que vai da menina bonita que é tratada como objeto sexual por todos até a menina que bebe um pouco demais e, completamente inconsciente, estava “pedindo”.

No anonimato da escuridão, o ar parecia pesado de pensamentos, a loira sentada do meu lado se esforçando para respirar normalmente quando um menino sugeriu que ela seria a estuprada entre as cinco de nós que foram apontadas.

Tudo isso é apenas potencializado pelo fato de que, ao se passar em uma cidade pequena, vemos uma história em que todos se conhecem muito bem, inclusive agressores e vítimas. O cara que vai te estuprar quando você estiver caindo de bêbada é o melhor amigo do seu irmão. O cara que grita que você merecia ser estuprada é seu amigo desde o Jardim de Infância. O cara pedófilo pego com pornografia infantil é aquele tio da sua amiga com quem você já passou horas sozinha ao longo da sua infância e, “por sorte”, não aconteceu nada com você. Temos, desse modo, uma situação impossível para a polícia: afinal, quem vai querer denunciar o vizinho, o filho da melhor amiga, o seu melhor amigo que estava apenas querendo se divertir um pouco?

A leitura de A (R)Evolução das Mulheres é, desse modo, muito fácil e muito difícil. Muito fácil porque os personagens nos envolvem e a série de acontecimentos encadeados aqui fazem com que não queiramos parar de ler até chegar ao fim, além do estilo de escrita da Mindy McGinnis ser bastante fluido. No entanto, é uma leitura muito difícil por tratar de temas tão fortes (e de não ter medo de descrever certas cenas em detalhes). Portanto, se você se sente preparado para encarar um YA com violência, abuso sexual e muita verdade, leia. Garanto que não vai se arrepender.

A violência da vida real não é aquela coisa coreografada dos filmes. Não é sensual. É algo desajeitado e confuso.

Maíra Protasio

Escritora e mestranda em Filosofia da Arte, vive desde sempre entre livros e cadernos. Vem publicando desde 2014 resenhas de suas leituras em seu blog: doquetenholido.wordpress.com

Breakfast at Tiffany’s – Truman Capote

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Nesta deliciosa novela, cuja história original muita gente nem sabe que é do aclamado autor americano Truman Capote, conhecemos uma Holly Golightly tão envolvente, cativante e imperfeita quanto a protagonista interpretada por Audrey Hepburn no clássico de mesmo nome. Existem diferenças, claro, como o fato de que sabemos desde o início que a protagonista tem apenas 19 anos durante os eventos da obra e que ela é loura, assim como o final da história.

Acho que o mais interessante deste livro, tendo ou não visto sua adaptação para o cinema, é o modo como somos apresentados a esta mulher-menina aparentemente fútil e interessada em algum tipo de “golpe do baú” e, aos poucos, nós temos a oportunidade de entender que há muito mais por trás desta imagem. Uma imagem, inclusive, que em grande parte foi escolhida por ela pelos diversos homens que passaram por sua vida e que insistem em tratá-la como uma boneca com tons de Lolita.

É também uma leitura deliciosa para aqueles que se apaixonaram pela Holly interpretada por Hepburn, pois faz com que nos lembremos de detalhes que podem ter passado despercebidos no filme, ao mesmo tempo que matam nossas saudades desta personagem que luta de maneira tão sutil e angustiante por sua liberdade com as únicas ferramentas que parecem estar à sua disposição.

Talvez não seja uma leitura que vá mudar a sua vida, mas é uma leitura muito gostosa e que nos ajuda a pensar o lugar de uma mulher jovem e bonita na nossa sociedade, seja hoje ou nos anos 50, época na qual a história se situa.

 

 

AMORA – Natália Borges Polesso

Em Amora, Natália Borges Polesso nos brinda com uma coletânea composta de 33 contos ligados por um tema em comum: todos giram em tornos de diferentes relacionamentos amorosos entre mulheres. O que poderia ser repetitivo, ou apenas uma forma de ser ~polêmica~, prova-se rapidamente muito mais que isso.
Pois o que Polesso nos mostra, com seus contos, é que ser gay não é o ponto. Estas são histórias de pessoas. São histórias de amor. São histórias de desamor. São histórias de momentos e de uma vida inteira. São histórias.
É claro que, como costuma acontecer em livros de contos, existem alguns melhores que outros, mas acho que, no caso de Amora, é justamente a diversidade de estilos, problemas e soluções. Cada conto é único, abrangendo uma constelação própria de mulheres incríveis e apaixonantes.
Para quem gosta de contos, dos mais sucintos aos mais extensos, dos mais fofos aos mais amargos, é um prato cheio!

A Melodia Feroz – Victoria Schwab

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Confesso que a premissa de A Melodia Feroz, a primeira vista, não me conquistou tanto assim. Este foi o livro-surpresa que recebi na edição de Maio do Turista Literário e a sinopse dá editora dá a entender que encontraríamos uma situação meio Romeu e Julieta: dois filhos dos líderes de dois terrítorios inimigos, Norte e Sul. Mas que bom que eu confiei na curodaria do Turista porque esse livro é tão maior do que parece a princípio!

Neste primeiro volume da duologia Monstros da violência, somos apresentados a dois personagens e suas famílias. No Sul vive August Flynn, o monstro que busca lutar contra sua natureza e ser o mais humano que ele puder, junto com seus irmãos, Ilsa (♥) e Leo, e seus pais, Henry e Emily. No Norte, voltando para casa, está Kate Harker, a filha do líder da região, Callum Harker, que, mesmo sendo humana, busca se tornar cada vez mais monstruosa, pois o vê como a única forma de ser aceita e respeitada pelo pai, que governa pelo medo.

O que me conquistou logo de cara nesta história foi o fato de que os monstros, como August, são criados por meio da violência. Não por um cientista maluco, ou por algum fenômeno sobrenatural, mas como consequência direta de atos de extrema violência. Schwab nos mostra um mundo, portanto, em que atos extremos de violência possuem uma consequência muito palpável. Aqui, não dá para concordar com o discurso da guerra, por exemplo, pois a violência literalmente gera mais violência.

Quando alguém aperta um gatilho, dispara uma bomba, faz um ônibus cheio de turistas cair da ponte, o resultado não são apenas escombros ou cadáveres. Existe outra coisa. Algo mau. Uma consequência. Uma repercussão. Uma reação a todo o ódio, dor e morte. O Fenômeno era isso na verdade: um ponto crítico. Veracidade sempre tinha sido violenta – o pior dos dez territórios -, era apenas uma questão de tempo até todo esse mal começar a tomar forma.

Além disso, a escrita da autora, como quem já leu suas outras obras deve saber, é muito gostosa e, antes que você perceba, você já está completamente envolvido com os personagens e com uma inacreditável cadeia de eventos que não parece aguardar boa coisa para nossos protagonistas. Já estou completamente desesperada pela continuação e cogitando seriamente comprar a edição gringa mesmo por pura ansiedade. Se é uma história assim que você anda querendo, leia A Melodia Feroz que você não vai se arrepender!

[RESENHA] Melancia – Marian Keyes

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Eu preciso começar esta resenha ressaltando um fato importante: eu não sou uma leitora de Chick-Lits. Realmente não sou. Mas, sabendo que isso era mais um preconceito literário do que um problema com o gênero baseado na minha experiência, resolvi pegar Melancia para reavaliar o que eu pensava sobre este tipo de livro.

Uma das coisas que eu gostei muito, e que me surpreenderam neste livro foi o modo como Keyes constantemente se refere aos clichês da comédia romântica de forma irônica e se recusa terminantemente a cair em qualquer um deles. Afinal, um livro em que a trama inicia com a nossa protagonista dá luz a uma linda menina e é abandonada pelo pai da criança ao mesmo tempo não pode ser considerado tipicamente romântico, não é mesmo?

Outro aspecto que deu para perceber é que Marian Keyes mostra que dá para escrever um livro com bastante humor, um humor bem particular que talvez alguns não gostem mas que, para mim, caiu muito bem, sem se resumir a isso. Pois outro problema que eu observava nos Chick-Lit era essa ideia de que entretenimento deveria ser igual a superficialidade e histórias engraçadinhas, mas que são facilmente esquecíveis.

Pois mesmo não sendo um livro profundo, com grandes reflexões filosóficas ou discussões mais densas, este é um livro que consegue abordar de maneira bem comprometida um dos grandes malefícios do machismo e da cultura do amor romântico: o relacionamento abusivo disfarçado de amor. Sem querer entrar em spoilers, Keyes mostra com clareza como você pode acabar duvidando de si mesma a tal ponto de acreditar que o que você sente não é real, que sua dor deve ser superada e, principalmente, que os erros do outro são, na verdade, culpa sua e é você que deve ser perdoada, e não o outro.

No meio de tudo isso, aprendemos a amar Claire que, como todos nós, é uma pessoa imperfeita, mas que merece ser tratada com respeito, com compreensão e empatia, algo que parece faltar a uma série de personagens que conhecemos em Melancia. Assim como sua protagonista, o livro em si não é perfeito, e talvez de fato o Chick-Lit não seja para mim, mas foi uma leitura prazerosa e que me mostrou que muitas ideias que eu tinha sobre o gênero estavam equivocadas.

O quarto de Jacob – Virginia Woolf

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Considerado, tanto pela crítica quanto pela própria autora, como o primeiro livro “em liberdade” de Virignia Woolf, O quarto de Jacob é uma pequena preciosidade. Delicado, envolvente e já bem moderno, comparado ao tipo de literatura que era produzida na época, O quarto de Jacob é absolutamente encantador.

Aqui vemos uma Woolf que já começa a explorar os novos caminhos que a levarão a algumas de suas obras mais icônicas, como Mrs. Dalloway. Vamos aos poucos conhecendo e desvendando as minúcias do personagem Jacob, que me conquistou desde as primeiras páginas. Ele é estranho e de uma sensibilidade impressionante, assim como de um impulso reflexivo marcante.

Um dos pontos mais interessantes do livro é o modo como Woolf faz uso da nossa ideia idílica da Grécia Antiga para dar voz aos anseios tipicamente modernos que passam  a surgir na mente de Jacob.

Essa melancolia, essa submissão às águas escuras que nos cercam, é uma invenção moderna. Talvez, como diria Cruttendon, não acreditemos o bastante.

 

 

Maíra Protasio

Escritora e mestranda em Filosofia da Arte, vive desde sempre entre livros e cadernos. Vem publicando desde 2014 resenhas de suas leituras em seu blog: doquetenholido.wordpress.com

Matéria Escura – Blake Crouch

Um dos lançamentos mais incríveis que a Intrínseca trouxe até agora neste ano, e de uma beleza editorial impressionante, Matéria Escura foi uma leitura de impacto tremendo para mim. Eu não sabia muita coisa sobre a história antes de começar a ler, sabia apenas que girava em torno da teoria dos multiversos, e mesmo disso não sabia muita coisa.

A verdade é que minha experiência com a teoria do Multiverso se baseia, em grande medida, na série de TV The Flash, ou seja, não tem uma base 100% cientifica. Por isso, talvez, a forma bastante técnica e, ainda assim, compreensível para nós, pessoas comuns, que não estamos acostumados a lidar com problemas de física no nosso cotidiano. Acho, inclusive, que eu nunca achei a Física, enquanto disciplina, tão tangível e interessante quanto ao longo das frenéticas 48h que levei para ler este livro.

Nosso protagonista é Jason Dessen, um homem que aparentemente é feliz, embora, como todos nós, fez escolhas que, em um momento ou outro, questiona se foram as escolhas corretas ou não. Ainda sim, refazê-las não parece ser uma vontade sua. Ele está perfeitamente satisfeito com sua vida. Mas, à sua revelia, ele acaba sendo enviado a um outro mundo paralelo, onde as suas escolhas teriam sido outras e, portanto, a vida que construí para si completamente diversa.

Ao longo de Matéria Escura vamos acompanhando, deste modo, três momentos da história de Jason. Primeiramente, ele busca compreender o que aconteceu com ele, pois ele não sabe, de início, nem quem nem como nem porque tudo isso está acontecendo com ele. Em segundo lugar, acompanhamos a luta para Jason voltar para casa. Finalmente, acompanhamos as consequências deste processo de volta para casa, consequências estas bastante surpreendentes.

Estas consequências acabam sendo, na verdade, o que leva o livro a um nível existencialista tão impressionante. Pois, sem dar nenhum SPOILER, a questão deixa de ser apenas em que medida podemos ou não refazer nossas grandes escolhas, dedicar-se a família ou ao trabalho, por exemplo, mas em que medida cada pequena escolha, às quais nem damos muita importância, é responsável por formar quem somos, nossa essência.

Somos apenas a soma de nossas escolhas? Nosso passado sempre é o que determina nosso futuro? Podemos mesmo falar de essência ou, como pretende a corrente existencialista, tudo o que somos é o que fazemos? Matéria Escura apresenta alguns caminhos para respondermos estas perguntas, o mais interessante deles presente em uma conclusão a que Jason chega ao final de sua jornada:

Não posso deixar de pensar que somos mais do que a soma total de nossas escolhas e que todos os caminhos que poderíamos ter trilhado influem de algum modo na matemática da nossa identidade.

Maíra Protasio

Escritora e mestranda em Filosofia da Arte, vive desde sempre entre livros e cadernos. Vem publicando desde 2014 resenhas de suas leituras em seu blog: doquetenholido.wordpress.com

Frankenstein – Mary Shelley

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Frankenstein é um dos clássicos mais importantes para toda a literatura de ficção científica e de terror que veio posteriormente, e sem dúvida um dos mais reinventados pela nossa contemporaneidade. De desenhos animados para crianças aos mais diversos estilos de filmes de terror, não quem não tenha, mesmo que vaga, alguma referência ao personagem Frankenstein ou, ainda, à busca frustrada por criar vida por meio da ciência.

No entanto, quando chegamos à obra original, percebemos rapidamente que estas referências tem pouca ou nenhuma relação com o texto de Shelley. Para mim esta foi uma releitura (em uma versão bem mais completa) de uma das minhas primeiras leituras em inglês, ainda na época do colégio. Então algumas dessas diferenças, como o fato de que o “Monstro” nunca é nomeado e Frankenstein é, na verdade, o nome do médico, do seu criador, e não da criatura, não foi surpresa para mim, mas acredito que seja para quem nunca teve contato com a obra.

O interessante é que, mesmo lembrando de alguns pontos centrais, existem muitos elementos que já haviam ficado perdidos nestes mais de 10 anos entre as duas leituras, então foi como descobrir a escrita de Shelley e a história de Frankenstein e de sua criatura toda de novo. Eu me surpreendi, refleti, me encantei e me frustei com estes personagens que são humanos, falhos e ao mesmo tempo completamente impressionantes.

Um dos lados mais interessantes da narrativa de Shelley é o modo como ela é capaz de nos fazer compreender os dois lados da história. Pois, no fundo, o que temos aqui são dois homens assustados: primeiramente, Frankenstein que, assustado e arrependido diante do resultado de sua obra, tenta renegar sua criatura, pois é só quando obtém sucesso em sua empreitada que consegue ver o quanto estava equivocado em achar que brincar de Deus seria simples e objetivo.

Por outro lado, vemos a criatura que, abandonada pelo seu criador e sem explicação alguma de como ou porque veio a existir, se vê sozinha e forçada a descobrir por si mesma quem ela é e qual é o seu lugar entre os homens. É impossível não se comover com sua condição, especialmente diante de seu esforço por aprender e encontrar um lugar no nosso mundo.

Somos forçados, no entanto, a encarar os fatos: será que, se postos frente a frente com uma criatura tal qual descrita por Mary Shelley seríamos diferentes? A trataríamos com respeito e compaixão? Ou somos todos, enquanto humanos, incapazes de lidar de um modo positivo com um ser tão radicalmente diferente de nós, mesmo que sendo, ao que tudo indica, formado de partes humanas?

Partindo de questões como essas, a leitura de Frankenstein acaba sendo um exercício radical de empatia. Até que ponto conseguimos ser empáticos com Frankenstein, que é o responsável pelo nascimento desta criatura? Até que ponto conseguimos ser empáticos com uma criatura que, perdida, desenvolve um comportamento cruel e violento? Até que ponto podemos, através da ciência, brincar de Deus e até que ponto somos os responsáveis pelas consequências de nossos experimentos?

Frankenstein é uma leitura forte, até um pouco violenta em alguns momentos, mas que tem seu grande trunfo nas questões que são colocadas, principalmente se pensarmos que foi publicada originalmente em 1818, quando sua autora tinha apenas 21 anos, e continua sendo tão pertinente. Já não tentamos reanimar corpos à maneira de Frankenstein, mas continuamos tentando driblar nossa mortalidade através da ciência. Será que um dia chegaremos lá? E, mais importante, será que nos arrependeremos, como Frankenstein se arrependeu?

Amor Plus Size – Larissa Siriani

Em Amor Plus Size, conhecemos Maitê Passos, uma garota de 17 anos linda, mas incapaz de se ver e ser vista para além de seus mais de cem quilos. Bullying, distúrbios alimentares, moda plus size, aceitação, descobertas, primeiro amor e respeito são apenas alguns dos temas que Larissa Siriani aborda nesta obra.

Aqui nós temos uma história que começa parecendo ser mais um romance adolescente da menina apaixonada pelo cara bonito porém misterioso, mas que obviamente se interessa mais pela menina popular magricela que por ela, mas que aos poucos se revela algo totalmente diferente. Siriani nos envolve de uma forma que nem nos damos conta do momento em que a história contada por Maitê torna-se bem mais séria, importante e abrangente.

Um escolha da autora que mostra-se importante para a experiência da leitura é que ela escreve um prólogo, no qual Maitê já é uma conhecida modelo Plus Size e, em meio a uma entrevista, começa a contar para a revista, e para nós, como foi que ela chegou até ali. Assim, a narrativa não gira tanto em torno do que vai acontecer, embora ainda role uma certa curiosidade a respeito da parte romântica da vida de Maitê, mas, sim, em torno de como vai acontecer.

É muito bonita, embora em alguns momentos pareça um pouco fácil demais, o modo como vemos Maitê crescer, transformando-se de uma adolescente bastante insegura em uma mulher forte, confiante. Este processo, assim como os momentos em que vamos vendo que ninguém é perfeito e cada personagem tem suas pequenas (e grandes) batalhas internas, é muito rico para o leitor, principalmente para aqueles que já passaram por questões parecidas, ou até para quem está vivendo um momento semelhante neste exato momento.

Acho apenas que em alguns momentos a leveza da narrativa teen fazem com que alguns pontos abordados por Siriani não recebam a atenção e densidade devida, mas, ainda assim, é uma leitura que vale muito a pena. E ela conclui a história de Maitê com um tom muito interessante, nem totalmente fofo e nem totalmente trágico, criando um final que dá vontade de chorar, sorrir e dar um abraço forte em cada um destes personagens.

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